O poeta Vinicius de Moraes escreveu que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Eu só queria me encontrar. Então, fui parar na roça durante os festejos de carnaval. Uma fazendinha nos arredores de Iporá. Não sou muito afeito à folia. Na verdade, nunca fui. Nem quando tinha franja e brincava o carnaval, única e exclusivamente, para arranjar namorada. Geralmente, dava errado. Além de tímido ao extremo, tinha uma péssima autoconfiança. O que me mantinha sozinho.
Estávamos em oito pessoas. Amigos e amores que a vida me presenteou desde os tempos da faculdade, há cerca de quarenta anos. Sim, havíamos “sessentado”. Mesmo assim, encantados com a magia do reencontro, enxergávamo-nos como se ainda fôssemos os mesmos garotos e garotas da época da graduação, a despeito de fisicamente avariados pelo tempo, com exceção das mulheres, que continuavam encantadoras.
Bebemos. Cozinhamos. Cantamos. Sorrimos. Ao final do feriado, quando retornei com a minha gata para casa, eu me senti tão impactado por ter estado com aquelas pessoas que sofri uma espécie de síndrome de abstinência. Entrei numa deprê, num inusitado estado de melancolia. Pouco mais de vinte e quatro horas, e eu já sentia uma saudade imensurável deles. Resolvi escrever para desanuviar. Mesmo que o texto ficasse uma porcaria, como parece que ficou mesmo. Reforma interior é assim mesmo: os benefícios passam, os transtornos ficam.
O meu saudoso velho tinha um conceito polêmico a respeito das amizades. Ele vivia nos dizendo que amigos de verdade eram pai, mãe e irmãos. Em tese, fazia sentido. Certa feita, ele protagonizou uma cena memorável que não posso me abster de compartilhar. Aconteceu faz muito tempo. Eu e os irmãos éramos crianças. Morávamos numa casa tipo sobrado, localizada num bairro de classe média. Estávamos reunidos na sala de TV, no andar superior, quando, de repente, a campainha tocou. Papai pediu que fizéssemos silêncio. Então, jogou-se no assoalho e se arrastou vagarosamente, como se fosse um soldado em treinamento militar. Concentrado, ele afastou devagarzinho a cortina com a ponta dos dedos e percebeu que tinha um sujeito em pé na calçada, em frente ao portão. Era o compadre Paulo. A esposa e os filhos esperavam dentro do fusca.
Daí, ele colocou o dedo indicador em riste na frente do nariz, requerendo silêncio absoluto. Sussurrou que todos se deitassem no piso, inclusive a mamãe. Só faltou usar a linguagem de sinais do exército. A campainha tocou mais duas vezes. A gente continha o riso. Compadre Paulo comentou: não tem ninguém em casa. Então, ouvimos a porta do carro bater, a ignição ser acionada e o barulho do motor desaparecer rua abaixo. Papai conferiu a calçada e disse: pronto, podem se levantar; eles já foram.
Não faço ideia do porquê ele agiu daquela forma. Papai e o compadre Paulo eram grandes amigos. Será que tinha sucedido algum desentendimento? Já adulto, conversei com o meu velho a respeito; no entanto, ele desconversou e disse que aquilo não tinha acontecido. Aconteceu, sim. E ficou marcado na minha memória como um comportamento excêntrico, porém extremamente hilário.
O mais estranho de tudo é que o meu velho gostava de visitar os parentes e os poucos amigos que ele tinha à época, nos famigerados anos 1970, os vigiados tempos da ditadura militar no país. Hoje em dia, quando chega visita em casa, a maioria das pessoas acha estranho. Pensa logo em notícia ruim. Não faz muito tempo, visitei um jovem casal de amigos, se é que ainda podemos nos considerar como tal. Então, percebi o quanto eles ficaram desconcertados com a minha presença. Inclusive, a mãe da moça, que estava presente no apartamento, olhava-me com a cara enfezada. Percebendo que a minha presença era um estorvo, inventei uma desculpa e saí o mais rápido que pude. A partir desse dia, comecei a entender que essa história de visitar os outros não funcionava mais como antigamente.
Há poucos dias, uma leitora comentou que eu estava escrevendo textos demasiadamente “sentimentaloides” e que ela não gostava do estilo. Dizia preferir os contos sarcásticos, irônicos, debochados. Para completar, perguntou se a mudança na forma de escrever era definitiva e se tinha alguma coisa a ver com o fato de eu ter me tornado um sessentão. Sorri sozinho frente à tela do computador e respondi que ela tinha razão. Aliás, as mulheres quase sempre têm razão, o que evita muitos problemas. Apesar do comentário pertinente da leitora, eu não consegui domar o blues e acabei escrevendo sobre o quanto eu amava os meus amigos — aquele tipo de amigo — e que, apesar de não serem muitos, eles tornavam a minha caminhada no planeta muito mais leve e divertida. Sei que dava para contar com eles para amortecer qualquer tipo de bordoada da vida.
Aliás, ao contrário do que se diz usualmente, a vida não é curta. A vida é longa pra cacete. Quarenta anos de amizade é muito tempo. É preciso enaltecer isso, ainda que pareça piegas. Nessa altura da vida, usufruir das amizades legítimas e longevas é um privilégio, um bálsamo, uma espécie de “prêmio de consolo” por ter envelhecido. Quem conta com amigos leais, uma gente que carinhosamente chamamos de “pau para toda obra”, não teme nada de mau nesse mundo, a não ser o miserável fato de ficar longe da companhia deles, de forma temporária ou permanente.


