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Baseado em história impressionante real, drama histórico dirigido por Ben Affleck, que ganhou 3 Oscars, está na Netflix Divulgação / Warner Bros.

Baseado em história impressionante real, drama histórico dirigido por Ben Affleck, que ganhou 3 Oscars, está na Netflix

Em meio a uma revolução que transforma ruas em território hostil, seis pessoas precisam confiar numa mentira bem contada para continuar vivas. Em “Argo”, Ben Affleck assume a direção e interpreta Tony Mendez, o especialista da CIA encarregado de tirar do Irã um grupo de diplomatas americanos escondidos depois da invasão à embaixada dos Estados Unidos, em 1979, enquanto o novo regime consolida poder e fecha o cerco contra qualquer ligação com Washington.

Os seis funcionários conseguem escapar da tomada da embaixada e encontram abrigo na casa do embaixador canadense, mas o refúgio é temporário e frágil. A cidade está em alerta, documentos são verificados, estrangeiros são revistados, e a cada dia o risco de reconhecimento aumenta. É nesse cenário que Mendez surge com uma proposta improvável: criar a fachada de um filme de ficção científica chamado Argo e usar a suposta produção como cobertura para entrar no país e sair com o grupo como se fossem parte da equipe técnica.

A ideia parece absurda à primeira vista, e o próprio filme sabe disso. Quando Mendez busca apoio em Hollywood, encontra Lester Siegel, vivido por Alan Arkin, um produtor experiente e irônico, e John Chambers, interpretado por John Goodman, maquiador respeitado que entende como poucos o poder da aparência. Os dois embarcam na farsa com profissionalismo e um humor afiado que dá leveza a uma missão que, no fundo, pode dar muito errado. Eles registram roteiro, alugam escritório, divulgam artes, movimentam imprensa. O que começa como encenação ganha contornos oficiais, com papel timbrado, anúncios e credenciais que podem convencer até os mais desconfiados.

De volta a Teerã, Mendez precisa convencer os seis diplomatas a se tornarem outra coisa: produtores, roteiristas, profissionais de cinema. Ele treina respostas, ajusta perfis, ensaia versões da história. Não há espaço para improviso. Cada detalhe precisa bater com os documentos que carregam nas mãos. A tensão cresce porque não se trata apenas de atravessar uma fronteira, mas de sustentar uma narrativa sob olhares que procuram falhas. Affleck conduz essas passagens com sobriedade, sem exagerar no drama, deixando que o peso da situação apareça nos silêncios e nas pausas.

Bryan Cranston, como Jack O’Donnell, representa a pressão de Washington. Ele cobra resultados, questiona riscos, lida com limites políticos que podem inviabilizar a operação a qualquer momento. Essa dimensão burocrática é um dos pontos fortes do filme: nada acontece apenas pela coragem individual. É preciso autorização, coordenação, cálculo. A missão depende de carimbos, telefonemas e decisões que podem ser revertidas de um dia para o outro.

O suspense funciona porque está ancorado em procedimentos concretos. Checagens de passaporte, perguntas em balcões, olhares prolongados de autoridades locais. Não há grandes discursos heroicos, e isso é um acerto. O filme prefere mostrar profissionais fazendo seu trabalho sob pressão extrema. Quando surge humor, ele vem da convicção com que Lester vende um projeto inexistente ou da naturalidade com que Chambers fala de maquiagem como se fosse estratégia diplomática. Rimos, mas sabemos que a margem de erro é mínima.

“Argo” é, acima de tudo, um filme sobre a força prática da ficção. A mentira aqui não é fantasia escapista; é ferramenta de sobrevivência. Ben Affleck dirige com ritmo firme e aposta numa encenação clássica, que privilegia atores e situações reais em vez de efeitos grandiosos. Ele não transforma Tony Mendez em super-herói. Mostra um homem calculando riscos, lidando com medo e insistindo numa ideia que pode salvá-los ou expô-los de vez.

Sem revelar seus momentos decisivos, dá para dizer que o filme mantém a tensão até o último passo da operação. O espectador acompanha cada gesto com a sensação de que qualquer detalhe pode comprometer tudo. “Argo” deixa claro que, em certas circunstâncias, a linha entre cinema e política pode ser tão estreita quanto a de um balcão de aeroporto, onde um carimbo certo decide quem segue viagem e quem fica para trás.

Filme: Argo
Diretor: Ben Affleck
Ano: 2012
Gênero: Biografia/Drama/História/Suspense
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★