Quando uma figura poderosa aceita falar diante das câmeras sobre um escândalo real, a entrevista deixa de ser conversa e vira um teste público de sobrevivência. Em “A Grande Entrevista”, dirigido por Philip Martin, esse teste tem nome e sobrenome: Príncipe Andrew. O filme parte de um fato conhecido e escolhe olhar para ele pelo ângulo mais tenso possível: os bastidores da negociação que levou Andrew, interpretado por Rufus Sewell, a conceder à BBC uma entrevista sobre sua relação com Jeffrey Epstein.
Do outro lado da mesa está a jornalista Emily Maitlis, vivida por Gillian Anderson, que entra em cena com firmeza e uma clareza desconcertante. Antes de qualquer pergunta ir ao ar, porém, existe um jogo de forças envolvendo produtores, assessores e decisões estratégicas. É aí que surge a personagem de Billie Piper, peça-chave na engrenagem que tenta viabilizar o encontro entre imprensa e realeza.
O que poderia ser apenas uma reconstituição protocolar ganha tensão porque o roteiro entende algo básico: ninguém ali está fazendo aquilo por ingenuidade. Andrew aceita falar porque acredita que pode controlar danos e recuperar a própria imagem. A equipe da BBC insiste porque sabe que a entrevista pode se tornar um documento histórico. Cada telefonema, cada reunião e cada ajuste de formato carrega uma aposta silenciosa. O acesso ao príncipe depende de concessões; a credibilidade da emissora depende de perguntas que não podem ser suavizadas.
Rufus Sewell constrói um Andrew que oscila entre segurança e desconforto. Ele se apoia na formalidade, tenta manter a postura, mas a situação o empurra para um território menos confortável: o da prestação de contas pública. Gillian Anderson, como Emily Maitlis, evita qualquer exagero. Sua interpretação é precisa, quase clínica, e justamente por isso incisiva. Ela não precisa elevar o tom para impor presença. Basta insistir na pergunta certa, no momento certo.
Philip Martin, que já transitou por narrativas envolvendo poder e bastidores institucionais, mantém a encenação contida. A câmera prefere os rostos, as pausas, os pequenos gestos que denunciam tensão. O ritmo é calculado para que o espectador sinta o peso do que está sendo dito sem que o filme transforme tudo em espetáculo sensacionalista. A força está na fricção entre imagem pública e vulnerabilidade momentânea.
“A Grande Entrevista” também é interessante por mostrar como uma instituição tradicional reage quando seu controle é desafiado. O Palácio tenta proteger sua autoridade; a BBC tenta proteger sua independência editorial. No meio disso, pessoas reais precisam tomar decisões concretas, cientes de que cada frase pode ter consequências amplas. O longa não trata o episódio como fofoca ampliada, mas como um momento em que reputação, imprensa e poder colidem em rede nacional.
O filme aposta no desconforto gradual. A entrevista em si funciona como ápice inevitável de uma cadeia de negociações e expectativas. E mesmo quem já conhece o caso encontra aqui um retrato humano dos envolvidos, com suas estratégias, inseguranças e cálculos. A história dá a sensação de que falar pode ser tão arriscado quanto se calar. “A Grande Entrevista” transforma um evento real amplamente divulgado em drama contido e tenso, sustentado por atuações sólidas e por uma pergunta que ecoa além da tela: até que ponto alguém realmente controla a própria narrativa quando decide se explicar ao mundo?
★★★★★★★★★★




