Em “Na Companhia do Medo”, dirigido por Mathieu Kassovitz, Halle Berry assume o centro da história como Miranda Grey, ao lado de Penélope Cruz e Robert Downey Jr., em um suspense que começa quando uma psiquiatra criminal acorda internada no hospital onde trabalhava, acusada de assassinar o marido e incapaz de lembrar do que aconteceu.
Miranda era uma profissional respeitada, acostumada a entrevistar pacientes perigosos e a analisar mentes instáveis com segurança técnica. Depois de um acidente de carro em uma estrada escura, ela desperta em uma cela acolchoada da própria instituição. A virada é brutal: o prontuário agora traz o nome dela como paciente. O marido foi encontrado morto, e todas as evidências apontam para ela. O problema é simples e devastador, Miranda não se lembra de nada.
O hospital psiquiátrico deixa de ser ambiente de trabalho e vira prisão. Portas trancadas, vigilância constante e medicação obrigatória passam a organizar seus dias. Pete Graham, personagem de Robert Downey Jr., colega de profissão, assume o papel de médico responsável por avaliá-la. Ele escuta, questiona, anota. Miranda insiste que é inocente, mas sem memória e sem liberdade, sua palavra perde força.
De médica a suspeita
A nova rotina é feita de contenção e desconfiança. Miranda tenta reconstruir os dias anteriores ao crime, mas encontra resistência. Cada pedido de informação é tratado como possível sintoma. Cada questionamento vira indício de instabilidade. A autoridade que ela exercia desaparece rapidamente.
Na ala feminina, ela reencontra Chloe Sava, vivida por Penélope Cruz. Chloe é uma paciente emocionalmente frágil, marcada por traumas profundos. Entre surtos e momentos de lucidez, ela parece perceber algo que os outros ignoram. Miranda decide se aproximar dela, acreditando que a jovem pode oferecer pistas sobre o que aconteceu dentro da instituição. É uma aposta arriscada, porque qualquer movimento fora do padrão pode reforçar o diagnóstico contra ela.
Entre o real e o inexplicável
Conforme tenta juntar peças da própria história, Miranda começa a relatar experiências perturbadoras que sugerem a presença de algo além do racional. Ela passa a acreditar que pode estar sendo usada por uma força que busca vingança. A dúvida se instala: trata-se de um colapso psicológico ou há, de fato, algo oculto envolvendo o hospital e seus bastidores?
Kassovitz conduz essa ambiguidade com eficiência. A câmera se mantém próxima de Miranda, limitando o que vemos ao que ela percebe. O espectador compartilha sua incerteza. Nada é entregue com clareza confortável. O suspense cresce porque cada nova informação pode tanto aproximá-la da verdade quanto reforçar a tese de insanidade.
Enquanto isso, Pete Graham tenta manter postura profissional. Ele não é retratado como vilão óbvio nem como aliado irrestrito. Sua posição é delicada: precisa avaliar a colega sem se deixar contaminar pelo vínculo pessoal. Essa tensão dá ao filme um componente humano interessante. Não se trata apenas de fantasmas, mas de confiança, reputação e responsabilidade.
Investigação sob vigilância
Determinada a provar sua inocência, Miranda começa a observar o hospital com outros olhos. Ela presta atenção em horários, corredores, registros. Pequenos detalhes passam a ter peso. A instituição, que antes era seu espaço de autoridade, agora se impõe como obstáculo concreto.
A cada tentativa de avançar, surgem limites. A medicação interfere na clareza mental. A vigilância restringe movimentos. Colegas evitam conversas mais profundas. Ainda assim, Miranda insiste. Ela escreve, confronta, questiona. Sua luta não é apenas contra a acusação formal, mas contra a narrativa que tenta reduzi-la a um caso clínico.
O terror do filme não depende apenas de sustos pontuais. Ele nasce da sensação de perda de controle. Miranda não sabe se pode confiar na própria mente. E nós também não. Essa instabilidade é o motor do suspense. A ameaça pode estar nos corredores escuros, mas também pode estar dentro dela.
“Na Companhia do Medo” funciona justamente por sustentar essa dúvida até o limite seguro. O roteiro brinca com as expectativas do público sem entregar respostas fáceis. Halle Berry carrega o filme com intensidade física e emocional, alternando fragilidade e determinação de forma convincente. Penélope Cruz adiciona camadas de vulnerabilidade inquietante, enquanto Robert Downey Jr. mantém uma ambiguidade calculada que impede julgamentos precipitados.
Sem recorrer a explicações didáticas ou reviravoltas gratuitas, o filme constrói uma atmosfera claustrofóbica que prende a atenção. Mais do que descobrir quem está certo ou errado, o que realmente importa é acompanhar Miranda tentando recuperar a própria voz dentro de um sistema que agora a trata como ameaça. E essa batalha íntima, travada entre memória, culpa e possível vingança, é o que mantém a tensão viva até o último momento.
★★★★★★★★★★




