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Comendo a dor pelas beiradas no fogão azul de quatro bocas

Comendo a dor pelas beiradas no fogão azul de quatro bocas

Quando Edu entrou na cozinha encontrou o pai sozinho, em pé, em frente ao fogãozinho azul de quatro bocas. Ficou boquiaberto porque o pai preparava ovos mexidos.

— Pelo amor de Deus, pai. O que é isso?

— Bom dia, filho. Dormiu bem?

Já fazia dias que Edu não dormia bem. Vinha notando mudanças no comportamento do pai. Nestor fora clinicamente desenganado pelos médicos, ou seja, a tendência, na medida em que o tempo passasse, era que os neurônios dentro da sua cabeça continuassem a se deteriorar, tornando-se ainda mais aloprados, confundindo as sinapses como se fossem fios desencapados, a ponto de o cérebro desentender se o indivíduo estivesse morto ou vivo, alegre ou triste, faminto ou saciado. Verificar melhoras na saúde mental de Nestor deixava Edu angustiado, fazendo reacender a impensável chama da esperança numa cura para a demência senil.

Edu aproximou-se do sucateado fogãozinho azul piscina para conferir as lides do pai com a frigideira. Ficou preocupado que Nestor se machucasse ou que tocasse fogo no apartamento.

— Posso colocar coentro na comida, filho?

Abismado, Edu consentiu com a cabeça, sem nada dizer. Era incrível que o pai voltasse a se lembrar de detalhes, como o fato dele apreciar cheiro verde em tudo quanto era tipo de comida salgada. Sentaram-se à mesa que estava posta para três pessoas.

— Onde está Maria, pai? — Edu perguntou com a voz embargada, disfarçando o choro iminente.

— Pedi para ela ir à padaria buscar pão francês e bacon.

— Ela devia ter me avisado que sairia, pai. O senhor não pode ficar sozinho. É perigoso.

— Maria é boa pessoa. Não vá brigar com ela. Sabia que ela cria três filhos sozinha e que acorda todos os dias às quatro horas da manhã para vir trabalhar? Ela mora no cu do Judas, Edu. Uma hora e meia para vir. Uma hora e meia para voltar. Três horas diárias dedicadas a esse emprego. Essa mulher é uma guerreira. Quanto estamos pagando para ela?

— Estamos pagando bem, pai. Não se preocupe com isso.  

Edu conhecia de cor e salteado o longo histórico da funcionária com a família. Então, ficou apreciando o pai servir os ovos mexidos dentro dos pratos, sem tremer as mãos, sem derrubar comida sobre o forro floral. Nestor estava vestido com a camisa 9, a camisa de Fernandão, craque do time alviverde que tinha morrido numa queda de helicóptero há exatos doze anos.

— Hoje tem jogo do Verde, filho. A gente podia ir ao Serra Dourada. Vai ser um jogão. Precisamos ganhar para ter chances de subir para a série A.

— O Goiás não manda mais os seus jogos no Serra, pai. O governo vendeu a concessão do estádio para a iniciativa privada.

— Malditos.

— Sim, pai. São uns malditos. 

— Que seja na Serrinha, então.

Perplexo, Edu não respondeu. Maria chegou com a encomenda. O bacon fatiado foi direto para a frigideira.

— Maria, não convém deixar papai sozinho sem me avisar. Acredita que ele estava cozinhando? Podia ter se queimado ou coisa pior.

— Não brigue com ela, Edu.

— Seu pai está melhorando, Eduardo. Percebeu que a memória dele está voltando todinha?

— Não compreendo. Não é possível.

— Isso é coisa de Deus, Eduardo.

— Deus não existe, Maria — o velho comentou em tom de chacota.

— Viu, só? Ele se lembra que não acredita em Deus. Eu prefiro a versão cristã do seu Nestor, mas não posso deixar de comemorar a sua evolução, o fato da memória retornar a passos largos.

— Não entendo, Maria.

— O que você não entende, filho? Coma logo os seus ovos antes que esfriem. Quero visitar Matilde, antes de irmos ao jogo.

Edu olhou fixamente para o pai com os talheres em punho para cima. Sentiu uma certa irritação.

— Mamãe está morta, pai.

— Eu sei que Matilde está morta. Quero levar um arranjo de flores e depositar sobre a lápide. Algum problema nisso?

— Santo Cristo… Me explique o que está acontecendo, pai, pelo amor de Deus.

— Aquilo lá deve estar tomado de mato. A prefeitura não cuida nada bem do cemitério municipal. Me ajuda a dar um trato no túmulo da sua mãe?

— Claro que ajudo, pai.

— Excelente.

— Pai, olhe pra mim. Isso é real? Estarei perdendo o juízo também? Me diga, pai. O que está acontecendo?

— Como assim “O que está acontecendo”?

— O senhor está diferente. Parou de esquecer as coisas. Na verdade, está mais ativo, sorridente, alegre, parece ter recobrado grande parte da memória. Começou a se lembrar de tudo nos últimos dias. Isso não pode ser, pai.

— Nada é impossível para quem tem fé — interviu Maria.

— Não faça isso comigo, pai.

— Isso o quê, Edu? Será o benedito?

— Não me faça sentir esperança de novo, pai. Tenha piedade. Que alegria escandalosa é essa?

Eduardo não conseguiu mais segurar o pranto.

— Não chore, filho. Fique calmo. Termine o café da manhã. Temos um longo dia pela frente.

— Não pode estar acontecendo.

— Creia em Deus Pai Todo Poderoso, Eduardo.

— Deus não existe, Maria. Pare com essa ladainha, ora e essa!

— Eu te amo, pai. É bom ter você de volta. Você não faz ideia do quanto isso é bom…

Na manhã seguinte, Edu foi acordado pelo barulho da chaleira fervendo na cozinha. Levantou, atabalhoadamente, tropeçando nas coisas e caminhou ligeiro até a cozinha, onde se deparou com Maria coando o café, a TV sintonizada na missa e Nestor sentado na cadeira de rodas, em frente à janela, com o olhar paralítico, perdido, como se enxergasse no horizonte algo que ninguém mais estava vendo. 

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.