“96 Minutos” acompanha Song Kang-ren (Austin Lin), um ex-especialista em desativação de bombas que é forçado a voltar à linha de frente quando um trem de alta velocidade se transforma em uma armadilha sobre trilhos. O comboio parte de Taipei rumo a Kaohsiung com dezenas de passageiros a bordo, e o tempo vira o inimigo mais concreto: há apenas 96 minutos para impedir uma tragédia em cadeia. A direção é de Tzu-Hsuan Hung, que conduz a história com foco absoluto em decisões práticas e consequências imediatas.
Song não entra em cena como herói clássico. Ele retorna ao trabalho sob desconfiança, com acesso limitado a informações e recursos, e precisa negociar cada movimento dentro de um ambiente que não para de avançar. O trem em movimento impõe regras próprias: não há espaço para evacuações amplas, nem para planos longos. Cada vagão vencido depende de autorização, cálculo e improviso, o que mantém o risco sempre um passo à frente das soluções.
A tensão cresce porque a ameaça não é apenas técnica. Vivian Sung interpreta a detetive que também está a bordo, alguém diretamente envolvida na crise e emocionalmente ligada ao homem responsável por contê-la. Essa relação adiciona pressão real às decisões, sem transformar o filme em romance. O vínculo funciona como obstáculo adicional: proteger vidas sem perder o controle emocional vira parte do desafio, e erros custam tempo, confiança e margem de ação.
O roteiro evita explicações excessivas e aposta em informação fragmentada. Song recebe dados aos poucos, muitas vezes incompletos, o que o obriga a agir antes de ter o quadro inteiro. Autoridades externas tentam impor ordens, enquanto a equipe dentro do trem precisa lidar com a realidade física do espaço e do relógio. Bo-Chieh Wang e Po-Hung Lin surgem como peças importantes nesse jogo de comando instável, representando forças que ora colaboram, ora atrapalham o avanço.
Há momentos pontuais de humor seco, quase defensivo, usados para conter o pânico e manter algum nível de cooperação entre passageiros. Não são piadas soltas, mas tentativas práticas de ganhar tempo e circulação. Funcionam por instantes e falham logo depois, reforçando a sensação de que nada ali é permanente ou seguro.
Tecnicamente, o filme é econômico. A direção prefere cortar informações em vez de explicá-las, alongando silêncios quando o tempo aperta e acelerando decisões quando não há escolha. Isso não é estilo vazio: a forma como as cenas são montadas interfere diretamente na percepção de urgência e no acesso do protagonista às soluções possíveis.
Sem recorrer a reviravoltas exageradas, “96 Minutos” se sustenta como um thriller de ação sólido, que entende que tensão vem menos do espetáculo e mais da soma de pequenas decisões sob pressão. É um filme sobre controle que escapa, autoridade que muda de mãos e tempo que não perdoa. Quando a corrida termina, o que fica não é uma lição abstrata, mas o peso concreto de cada escolha feita dentro daqueles vagões.
★★★★★★★★★★



