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Cartas do pai reaparecem décadas depois — e viram o livro mais íntimo (e inquietante) de Cristovão Tezza

Cartas do pai reaparecem décadas depois — e viram o livro mais íntimo (e inquietante) de Cristovão Tezza

“Visita ao Pai” representa um pequeno passo para o autor, mas um grande passo para a literatura brasileira contemporânea. Em seu novo trabalho, eleito, numa enquete realizada pela Revista Bula, como o melhor livro de 2025, Cristovão Tezza parte da experiência de um indivíduo, seu pai, para fazer uma sofisticada e necessária reflexão sobre o Brasil. O livro começa de um jeito simples e inquietante, pelo que sobra. Cartas guardadas sem alarde, cadernos, anotações soltas, registros de um homem do século 20 reaparecem já no século 21, quando o filho percebe que vai ter de reler o próprio passado a partir de papéis que não foram escritos para ele. Há aí um choque discreto: a caligrafia de alguém que já não está, o modo de nomear as coisas, os silêncios entre uma linha e outra. É desse reencontro tardio que Cristovão Tezza parte para organizar o livro como investigação. Em vez de recompor uma figura inteira ou montar um pai definitivo, daqueles que entram em cena com biografia pronta e traços bem-marcados, ele escolhe trabalhar com o que falta. Interessa menos a presença do pai do que os vazios que ele deixou e o modo como esses vazios vão mudando de lugar com o tempo. Como se a memória não fosse um retrato, mas um objeto manuseado demais, que vai ganhando marcas, riscos, dobras.

Visita ao Pai
Visita ao Pai, de Cristovão Tezza (Editora Companhia das Letras, 448 páginas)

A entrevista acompanha esse movimento com nitidez. Tezza insiste em não transformar a experiência em confissão, esse atalho que costuma reduzir uma vida a um drama íntimo e fechado sobre si. Também desconfia do conforto que, às vezes, se atribui ao documento, como se uma carta bastasse para resolver uma pessoa. O que aparece no livro é mais incômodo e, por isso mesmo, mais verdadeiro no sentido literário: uma tentativa de entender o outro pelo que ele deixou escrito e pelo que não escreveu, pelo que o filho imagina, erra, corrige e volta a errar. Nessa leitura, a família não entra como cenário sentimental, mas como lente. E o país surge sem discurso, nos detalhes de época, no vocabulário, no jeito de registrar trabalho, dinheiro, hábitos, pequenas crenças.

Tezza não promete uma chave que explique tudo. Ele sustenta a pergunta e aceita o que ela tem de insolúvel. A escrita, aqui, não serve para fechar o assunto; serve para manter o assunto respirando. Talvez por isso ele fale sem pose e sem efeitos: há a segurança de quem escreve há muito tempo e sabe que contar histórias ainda é uma forma de dar algum contorno ao que, de outra maneira, viraria só ruído. E é também por isso que seu nome, há décadas, ocupa um lugar central na prosa brasileira contemporânea.


Ademir Luiz — A pergunta recorrente que tem sido feita na série de entrevistas que você tem dado sobre seu novo livro, “Visita ao Pai”, é sobre a relação entre ele e o clássico “O Filho Eterno”. Vou subverter um pouco isso: pergunto se haveria algum ponto de contato com “Carta ao Pai”, de Kafka?

Cristovão Tezza — Bem, pais e filhos são personagens literários fundamentais desde a Bíblia, com uma proeminência especial na literatura desde a invenção da família urbana moderna, as clássicas figuras sorridentes na fotografia na vida de todos nós. Quase tudo o que se escreveu no Ocidente nos últimos 200 anos cabe nesta foto. É um tema comum — pais são entidades poderosas. Mas, no caso de “Visita ao Pai”, qualquer outro contato, é claro, termina aí. “Carta ao Pai” é um manifesto da impotência de se insurgir contra o mito do pai; é uma obra sobre o transbordamento esmagador da presença do pai, escrito a quente; o texto é um gesto da própria vida, não um objeto frio que se contempla. A carta de Kafka, como boa parte de tudo o que ele escreveu, descolou-se de sua origem, estetizou-se e foi se reinterpretando com a passagem do tempo. Já o ponto de partida de “Visita ao Pai” é justamente o contrário — um livro sobre a ausência, o histórico de uma fratura familiar, a arqueologia de uma redescoberta. É também um livro sobre a distância, que eu só conseguiria escrever a essa altura da vida. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos — o que representa uma liberdade assustadora; você passa a vida tentando ocupar aquele vazio.


Ademir Luiz — A Revista Bula, em uma enquete com dezenas de escritores, jornalistas e intelectuais, elegeu “Visita ao Pai” como o melhor livro brasileiro de 2025. Isso prova a força de sua obra entre os formadores de opinião, entre os leitores mais experientes. Como você avalia a recepção crítica que o livro tem recebido, considerando que é uma obra de difícil definição?

Cristovão Tezza — Claro que o escritor fica feliz com o reconhecimento quando um livro é bem recebido, mas é um prazer que, pelos meus anos de estrada, procuro apreciar com moderação. A repercussão crítica é sempre um retrato do momento, falível, volátil, mutante — quem escreve sabe disso. E há outras variáveis: se o autor é iniciante ou se já é bem rodado, o que é o meu caso, alguém que vem se formando há cinquenta anos. A natureza da ansiedade já é outra. É preciso considerar também a mudança de perfil da imprensa cultural na última década, o espaço atual da literatura, a presença avassaladora das redes sociais e o próprio foco crítico contemporâneo, que se transformou profundamente. Enfim, tento não me deixar levar pelo redemoinho; afinal, escrever deve ser, antes de tudo, uma atividade ética.

Bem, depois deste pequeno auto de fé, vamos à sua pergunta: eu estou realmente feliz com a recepção deste livro, o mais incerto e inseguro que escrevi. Durante três anos, vivi uma espécie de “performance literária”, na luta por dar nitidez a essa viagem às cartas do meu pai. O livro foi se fazendo pelo caminho. De fato, não me preocupei a priori com o gênero do que eu escrevia; o livro foi se compondo mais pelo que eu evitava fazer do que pelo que eu queria fazer. Eis uma síntese, dizendo com simplicidade: eu conto uma história baseando-me em fatos reais, que pareciam se revelar para mim mesmo à medida que o texto avançava. Claro que, ao final, você volta ao começo e acerta todas as pontas soltas, mas o processo de escrita já deixou suas marcas.

Eu tinha algum temor da recepção por motivos bem objetivos — é um livro inclassificável, como você diz; e é extenso. Aliás, começou com mais de 600 páginas, até eu deixá-lo mais enxuto, com o tamanho atual. E eu tinha uma obsessão narrativa: este livro não pode ser chato; ele não pode ser simplesmente o relato de um problema particular, na medida em que eu não me entreguei à “ficção pura” (que, afinal, tudo aceita).

Mas estou percebendo uma recepção crítica muito boa, e principalmente uma reação pessoal dos leitores muito especial, mais intensa do que em qualquer outro livro meu. A questão do “gênero do livro” ficou em segundo plano, porque estamos vivendo um momento de mudanças culturais muito fortes em todas as áreas; toda a “classificação” do mundo está se redesenhando, e a própria literatura não escapa disso. Nunca deixaremos de “contar histórias”, parte fundamental da aquisição e do domínio da linguagem, mas as suas formas são sempre camaleônicas ao longo do tempo.


Ademir Luiz — A dinâmica entre o macro e o micro, o individual e o coletivo, em “Visita ao Pai” é evidente. O livro é tanto sobre seu pai, mapeado a partir dos escritos que ele deixou, quanto sobre o Brasil, o país em que ele viveu e morreu. Mas é também sobre você, um escritor brasileiro que escreve ficção, filho desse homem que registrava tudo o que era real para ele. Considerando que você definiu o livro como um exercício de “análise documental”, também é possível considerar que se trata de um “estudo de personagem”? E, sendo assim, considerando os filtros da literatura, você não transformou seu pai em um personagem de ficção?

Cristovão Tezza — A pergunta é ótima — eu entendia isso (fazer do meu pai um personagem) como um problema a ser cuidadosamente evitado, o que é uma missão, afinal, impossível. O mais realista dos retratos será sempre um duplo ficcional da figura retratada. Mas a intenção é sempre poderosa quando se escreve. O que eu procurei de modo objetivo foi a pequena utopia de conservar o meu pai inteiro a partir das próprias palavras dele. Era um desejo de fidelidade, como o do paleontólogo que se pergunta diante de fragmentos sob a terra: o que exatamente eu encontrei aqui? Eu tinha de evitar o pecado da soberba, de fazer daquela figura incerta apenas um marionete da minha linguagem.

E há um outro complicador: o foco integral não estava apenas nele, o personagem completo, por assim dizer; o livro não é uma biografia. Você não faz uma biografia sem pesquisa extensa, que teria de ir muito além da correspondência anotada. O foco era a percepção da imagem do pai a partir das palavras dele, entremeadas na memória familiar e no seu imaginário; é muito mais por esta memória fugidia que nos movemos, interpretamos, nos defendemos, do que pela crueza dos fatos em si.

E, detalhe importante, o livro se faz pela perspectiva histórica, que é o que dá sentido às coisas. É um olhar do século 21 sobre alguém que se formou na primeira metade do século 20 — quase 100 anos nos separam. E o que temos não é mais do que a fidelidade possível, sempre incompleta.


Ademir Luiz — Você acha que entre os escritos de seu pai havia algo que se aproximava de um “rosebud”, uma chave interpretativa para compreender esse homem?

Cristovão Tezza — Lembro da bela pergunta de Drummond na sua procura da poesia: “Trouxeste a chave?” A poesia tem chave; a vida, desgraçadamente, não — pelo menos não será jamais uma única chave, embora a utopia permaneça viva. É uma pergunta que o narrador de “Visita ao Pai” vai se fazendo ao longo do livro inteiro: em que momento nos tornamos nós mesmos? Aquilo que, enfim, nos define? Existe este ponto? O narrador não sabe, mas investiga sempre.


Ademir Luiz — Além de “Visita ao Pai”, em 2025 você também lançou, pela Editora Record, uma edição revista de “O Fotógrafo”, lançado originalmente em 2004. Você incluiu um posfácio em que faz uma instigante reflexão sobre escrita, linguagem literária e as marcas do tempo na narrativa de ficção. Como foi a experiência de retomar o romance a partir dessas premissas?

Cristovão Tezza — É sempre um risco reler o que escrevemos décadas atrás, mas rever “O Fotógrafo” me deixou feliz. É um romance especial para mim, escrito depois de praticamente seis anos de mergulho na vida acadêmica, longe da ficção, quando resolvi fazer doutorado, então professor da UFPR. Foi um livro que me abriu um novo caminho, até pelos prêmios que recebeu, entre eles o primeiro Jabuti. A releitura também me lembrou a passagem rápida e absurda do tempo, do início dos anos 2000 até aqui — ainda não se usa celular, a fotografia é de rolo de filme, revelada fisicamente, os jornais são de papel, não existe táxi de aplicativo, e por aí vai. Percebi que um cidadão dos anos 1990 se sentiria mais em casa se voltasse a 1920 do que um habitante do nosso tempo retornando ao ano 2000. Não se trata apenas de uma mudança tecnológica — estamos vivendo uma revolução estrutural e existencial marcante.


Ademir Luiz — Vale a pena destacar que a capa de “O Fotógrafo” é um autorretrato fotográfico. Literalmente, um fogo de espelhos. Qual é sua relação com a fotografia? Como começou e como ela está integrada em sua produção artística?

Cristovão Tezza A fotografia que enviei era para ser apenas uma ideia, uma sugestão de capa à editora, mas a equipe gostou da imagem e me colocou lá, naquele autorretrato refletido — ainda bem que ninguém sabe que sou eu; se vê apenas um vulto fotografando. O que mais ou menos me define: um vulto fotografando, o eterno estagiário da fotografia. Gosto de fotografar desde o final dos anos 1970, quando comprei uma Olympus Trip básica. Mas sempre fui amador — na verdade, sofro de uma obsessão documental pela via da fotografia; o engraçado é que meu pai viveu sob a mesma obsessão documental, mas pela escrita. Durante a pandemia, decidi fazer alguns cursos online de fotografia e cheguei a montar um miniestúdio aqui em casa. Fotografar é uma alegria.

Sinto que a minha literatura tem um lado visual bastante forte: eu brinco dizendo que só escrevo o que eu vejo. Todos os meus livros começam por uma imagem, que me persegue durante um bom tempo, até que eu crie coragem e escreva a primeira frase. Em “O Fotógrafo”, era um “paparazzo” numa esquina, à espera de uma modelo para fotografá-la secretamente. Em “Visita ao Pai”, a imagem que dá partida é ele aos 20 anos entrando no quartel com uma maleta na mão. Fiquei imaginando a cena. Mas, nesse caso, todo o roteiro do livro já estava nas cartas que meu pai transcreveu nos cadernos.


Ademir Luiz

Doutor em História Medieval. Pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Bolsista pesquisador do Instituto Camões de Portugal. Indicado ao Prêmio Capes de teses. Professor universitário, romancista, contista, critico, ensaísta e poeta bissexto. Criador da Teoria do Chaves, o texto mais lido e compartilhado da internet sul-americana.