Com 100% de aprovação no tomatômetro do Rotten Tomatoes, “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, de Aki Kaurismäki, é uma demonstração quase didática de como o cinema pode extrair força expressiva do mínimo. Não se trata apenas de um filme feito com poucos recursos, mas de uma obra que transforma a escassez, financeira, estética, emocional, em linguagem. Kaurismäki faz do pouco muito, e do silêncio, discurso.
Com pouco mais de 70 minutos de duração, o longa praticamente abdica dos diálogos. É um filme silencioso, lúgubre, de cores dessaturadas, planos longos e ritmo deliberadamente lento. Essa economia formal não é um capricho estilístico: ela traduz o esvaziamento afetivo de uma Finlândia pós-industrial, onde o trabalho mecanizado e a vida doméstica se confundem em uma mesma engrenagem de repetição e resignação. Ao mesmo tempo, o filme encerra de forma magistral a Trilogia do Proletariado, coroada por uma atuação extraordinariamente contida, austera e objetiva de Kati Outinen.
Outinen interpreta Iris, jovem operária de uma fábrica de fósforos que vive com a mãe e o padrasto, sustenta a casa e paga as despesas familiares. Seus raros momentos de lazer se resumem a bailes populares, frequentados na esperança de encontrar algum amor. Enquanto isso, os pais passam grande parte do tempo vendo televisão. As transmissões sobre os protestos da Praça Tiananmen e a morte do aiatolá Khomeini não são detalhes despretensiosos: ajudam a situar o período histórico e conectam aquela vida privada sufocante a um mundo em convulsão política, do qual Iris parece completamente excluída.
Iris pouco faz por si mesma, até que, ao receber o salário, se permite um gesto mínimo de desejo: a compra impulsiva de um vestido floral cor-de-rosa. O objeto, aparentemente banal, funciona como ruptura simbólica com a lógica de obediência que rege sua existência. Ao prestar contas em casa, é punida com um tapa do padrasto e a ordem materna para devolver o vestido. Mas Iris é adulta, e, ainda que submissa ao sistema rígido da fábrica e da família, decide usá-lo. É nesse desvio quase imperceptível que o filme começa a se mover.
Em um bar, ela conhece Aarne (Vesa Vierikko). Os dois passam uma noite juntos, e Iris engravida. A resposta dele é brutal em sua frieza: nenhuma intenção de vínculo, apenas a exigência de um aborto. A violência se acumula. Em casa, Iris é expulsa pela mãe e pelo padrasto e se vê obrigada a se abrigar na casa do irmão, igualmente deslocado.
Esses acontecimentos despertam em Iris um furor silencioso, não expresso em gritos, lágrimas ou discursos, mas em ações frias, metódicas, de consequências irreversíveis. Kaurismäki não oferece qualquer forma de sentimentalismo: não há trilha grandiosa, fotografia contemplativa ou diálogos memoráveis. O filme é glacial, contido, quase imóvel. É justamente a repetição exaustiva da rotina que revela o ciclo de desesperança, enquanto o silêncio reforça a condição de invisibilidade social da personagem.
A vingança de Iris pode parecer desproporcional à primeira vista, mas funciona como síntese amarga de um ressentimento longamente acumulado, não apenas individual, mas coletivo. Em “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, a violência final não surge como explosão emocional, e sim como a única forma possível de ruptura em um mundo que jamais ofereceu escuta.
★★★★★★★★★★


