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Falar de amor não é chover no molhado

Falar de amor não é chover no molhado

Que delícia de chuva lavando a minha égua, aguando a minha horta, articulando os meus desejos, enxaguando a lembrança dos caminhos lamacentos da minha meninice, num disse-me-disse com o sol em segundo plano, a saldar os homens com um arco-íris dependurado no céu, chuviscando cores no horizonte, num esforço concentrado de desmonte da tristeza, com a destreza de renascer a esperança por dias melhores, por noites melhores, por homens melhores, suscitando uma pausa no desencanto como consequência da chuva branda, suave e ininterrupta que corrompe o silêncio ao gotejar dos beirais das casas sobre latas, lutos e outros objetos deixados no quintal da solitude, a despir os sentidos, a lavar a roupa suja no de-dentro do peito, a levar a sério a premissa de felicidade ainda que tardia, germinando sementes no fofo da terra e candura no coração das pessoas, na misteriosa missão humana de ir tocando a vida em frente, com café no bule, biscoitos na mesa, poesia no prato e, sobretudo, o amor a bulir com o solidário da gente, juntando a fome com a vontade de comer, devorando a solidão pelas beiradas, em artimanhas de acarinhar e de ser acarinhado, na compreensão mútua dos fenômenos primitivos da natureza, para nunca mais se maldizer a chuva como uma calamidade pública abominável, como uma espécie de estorvo à misteriosa saga do ser humano sobre a face da Terra, pois, a chuva chegou primeiro do que o homem, portanto, a chuva tem sempre razão.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.