Da dor nasce o sonho, e do sonho, a mudança. A arte não é capaz de erradicar do mundo o sofrimento, mas lhe confere valor, derrubando também as muitas barreiras que afastam os homens de seu próprio destino. Se a juventude é feita de momentos críticos, que encorajam alguém a tomar atitudes à primeira vista insensatas, mas que se provam fundamentais, a juventude de um gênio tem lances admiravelmente inspiradores, únicos, mágicos o bastante para arrastar-nos a todos. Os anos de formação de Miguel de Cervantes (1547-1616), plenos de reviravoltas e epifanias, vêm à luz em “O Cativo”, relato de como uma adversidade pode ser decisiva para o florescimento de uma personalidade rara, habilidosa em criar beleza a partir do trivial. Com espaço para boas polêmicas.
O homem por trás do mito
Uma boa parte do novo longa de Alejandro Amenábar é dedicada a enxergar Cervantes para além da inegável grandeza de sua obra. Conhecido do público por “Mar Adentro” (2004), com que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, Amenábar traz Cervantes à vida concentrando-se na captura em Argel do então soldado e aspirante a escritor por tropas de corsários otomanos. Ele fora um alvo fácil devido ao trauma que causou-lhe uma limitação permanente no braço esquerdo, e a rotina do cárcere mostra-se aterradora, com os forçados submetidos a amputações de orelhas e empalamentos, castigos que minam a saúde e a dignidade. Cervantes aproxima-se do padre e teólogo Antonio de Sosa (1538-1587), preso quando ia de Barcelona para Valletta, onde assumiria o cargo de deão da catedral de Agrigento, mas seria outra a relação que o iria impactar.
Fuga da realidade
A coroa espanhola destina recursos para libertar detentos, mas Cervantes não é contemplado. Os emissários do rei são os freis Juan Gil e Anton, o primeiro magro e este, corpulento, óbvios modelos para Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente, dois dos personagens mais famosos da literatura universal, e aos poucos o autor torna-se ele mesmo uma figura pitoresca, fascinado pela liberdade com que os homens manifestam afeto uns pelos outros. O diretor e o corroteirista Alejandro Hernández atentam para esse aspecto da história do biografado, encontrando na performance de Julio Peña um trabalho de composição sensível, avesso a chavões, embora a homossexualidade seja creditada por pesquisadores à maledicência de Juan Blanco de Paz, outro religioso dos tempos de cativo na Argélia. Ninguém vira uma lenda impunemente.
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