A canção “Mr. moonlight” foi composta por Roy Lee Johnson, músico americano de R&B. Ela fazia parte do repertório de shows dos Beatles desde 1962 e foi finalmente gravada para o álbum “Beatles for Sale”, de 1964. É uma das menos lembradas de toda a discografia do grupo. A gravação tem um clima meio lúgubre e estranho, com um ritmo quase caribenho e um órgão Hammond ao fundo, com direito a um solo esquisito. Seu grande diferencial é a introdução à capela de John Lennon, que grita: “Mr. moonlight”. Não direi que é ruim, porque os Beatles não têm música ruim!
A letra pede ao Sr. Luar que apareça novamente para iluminar o seu amor, uma vez que foi o Sr. Luar quem o fez encontrar a garota de seus sonhos.
A morte de John Lennon, ocorrida em 1980, foi o ponto de partida para a composição “Who killed Mr. moonlight”, do álbum “Burning from the Inside”, do grupo de rock gótico Bauhaus.
Afinal, o que é rock gótico? Um dos diversos estilos surgidos no fim da década de 1970, após a revolução punk. Caracterizado por uma música mais cheia de sombras, letras misteriosas e, por vezes, depressivas, repleta de referências à literatura e ao cinema de horror e em que a cor preta domina o visual das bandas e dos fãs.
Por mais paradoxal que seja, a banda símbolo do rock gótico pegou seu nome da escola de arquitetura alemã do séc. 20: Bauhaus. O estilo arquitetônico da Bauhaus não tem nada de gótico. O nome Bauhaus, uma inversão de hausbau, vem do alemão e significa “casa de construção” ou “construir uma casa”. A escola Bauhaus foi fundada em 1919 e se tornou um marco da vanguarda modernista, deixando uma influência profunda no design e na arquitetura mundial, e até nas artes plásticas.
A identificação, que gerou a homenagem à escola, entre a banda e a Bauhaus encontra-se principalmente na estética vanguardista e minimalista e na tipologia adotada para o nome do grupo musical.
A música do Bauhaus é uma mistura de punk e glam rock num invólucro minimalista caracterizado por guitarras com distorções e reverberações, baixo soturno e cheio de dubs, bateria econômica e vocal profundo e arrepiante. O débito do Bauhaus com o glam rock pode ser conferido nas versões para “Telegram sam”, do T. Rex, e “Ziggy stardust”, de David Bowie.
Descrita pelo baterista David J, autor da música, como uma “balada surrealista inspirada em parte pelo assassinato de John Lennon”, “Who killed Mr. moonlight” incorpora outros simbolismos e referências. O misterioso personagem Mr. Moonlight representa o espírito onírico e poético do Bauhaus, que vinha morrendo pouco a pouco e culminou na sua separação, ainda em 1983.
Se a morte de Lennon foi o estopim, a canção acabou por ganhar outras camadas e descreve, com a estética sombria típica do Bauhaus, a morte de um personagem emblemático, a perda da inocência artística e uma imersão no mistério e no oculto.
“Alguém atirou na nostalgia pelas costas / Alguém atirou na nossa inocência”; “Quem matou o Sr. Luar? / Na sombra do seu sorriso”; ou como o próprio Lennon disse: “O sonho acabou!”


