Discover
Filme de terror dos anos 2000 com Keanu Reeves, hoje cultuado, está na HBO Max David James / Warner Brothers

Filme de terror dos anos 2000 com Keanu Reeves, hoje cultuado, está na HBO Max

John Constantine (Keanu Reeves) não é um herói confortável. Ele entra em cena cansado, cínico, sempre com a sensação de que já viu coisa demais para ainda se surpreender. Em “Constantine“, dirigido por Francis Lawrence, o personagem atua como um detetive do sobrenatural que conhece atalhos proibidos, faz acordos duvidosos e aceita trabalhos que ninguém mais quer tocar. Desde o início, fica claro que cada investigação é também uma negociação pela própria sobrevivência.

A trama ganha corpo quando Angela Dodson (Rachel Weisz), uma policial pragmática e resistente a explicações místicas, procura Constantine para provar que a morte da irmã não foi suicídio. A parceria nasce mais por necessidade do que por confiança. Angela traz o acesso institucional, o distintivo, a urgência oficial. Constantine traz o conhecimento do submundo, das regras não escritas e dos riscos que não aparecem em relatório. A tensão entre os dois é prática, direta, e ajuda a manter a história sempre em movimento.

Los Angeles aparece como um espaço funcional, quase burocrático, onde o sobrenatural se infiltra sem cerimônia. Igrejas, hospitais, ruas escuras e delegacias não mudam de forma, mas mudam de significado dependendo de quem entra e com qual informação. Constantine circula por esses lugares com familiaridade desconfortável, enquanto Angela vai entendendo, passo a passo, que existem camadas de realidade fora do alcance da polícia. Esse contraste sustenta boa parte do interesse do filme.

Djimon Hounsou, como Papa Midnite, adiciona uma presença silenciosa e calculada à história. Seu personagem controla espaços neutros e impõe limites claros, funcionando como alguém que administra conflitos em vez de resolvê-los. Sempre que Constantine cruza esse território, fica evidente que nenhum favor vem sem custo. O filme acerta ao tratar essas interações como transações, não como revelações grandiosas.

Mesmo lidando com temas sombrios, “Constantine“ encontra espaço para um humor seco, quase defensivo. As ironias do personagem de Reeves surgem como mecanismo de sobrevivência, não como alívio cômico tradicional. Ele provoca, corta conversas e desarma situações com frases curtas, geralmente quando o risco está alto demais. Isso humaniza o personagem e evita que ele vire uma figura solene ou messiânica.

Francis Lawrence conduz a narrativa com ritmo firme, sem pressa de explicar tudo e sem transformar o filme em um desfile de conceitos religiosos. A história avança por decisões e consequências, não por discursos. Constantine faz escolhas questionáveis, Angela reage a elas, e o mundo responde com obstáculos cada vez mais concretos. O interesse do filme está menos em respostas definitivas e mais no preço de continuar investigando.

“Constantine“ funciona melhor quando assume sua identidade de thriller urbano com elementos de terror e fantasia, sem tentar ser algo maior do que isso. Keanu Reeves entrega um protagonista marcado pelo desgaste, Rachel Weisz equilibra razão e vulnerabilidade, e o conjunto cria uma experiência envolvente, direta e surpreendentemente humana. Não é uma história sobre salvação, mas sobre seguir em frente mesmo quando o custo já está claro.

Filme: Constantine
Diretor: Francis Lawrence
Ano: 2005
Gênero: Ação/Fantasia/Suspense/Terror
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★