Em “O Cativo”, Alejandro Amenábar acompanha Miguel de Cervantes (Julio Peña) no momento em que a vida dele deixa de ser promessa e passa a ser cálculo. Ferido, jovem e recém-capturado por corsários otomanos, ele chega a Argel em 1575 não como escritor em formação, mas como corpo negociável. A partir daí, o filme se organiza menos como relato histórico grandioso e mais como observação diária de sobrevivência sob domínio alheio.
Cervantes entende rápido que resistência direta só encurta o tempo de vida. O personagem passa a negociar pequenos espaços de autonomia, sempre medindo até onde pode ir sem provocar punições coletivas. Julio Peña evita o heroísmo fácil: seu Cervantes pensa antes de agir, recua quando necessário e aposta em palavras quando força física não é opção. Cada gesto tem consequência imediata, seja uma noite menos violenta, seja a perda de circulação dentro do cativeiro.
A relação com os captores é marcada por ambiguidade. Personagens interpretados por Alessandro Borghi e Miguel Rellán representam diferentes graus de autoridade e imprevisibilidade. Um impõe regras com frieza burocrática; outro oscila entre pragmatismo e crueldade casual. Amenábar nunca transforma esses homens em caricaturas: eles operam um sistema que funciona à base de medo, prazos e castigos exemplares, e isso basta para manter o controle.
O cotidiano do cárcere é mostrado como sucessão de esperas. Espera por comida, por notícias, por alguma chance de negociação externa. Quando surge a possibilidade de fuga ou resgate, ela nunca vem limpa nem segura. Cervantes precisa decidir pensando não apenas em si, mas nos outros prisioneiros, o que transforma qualquer escolha em risco compartilhado. O suspense do filme nasce exatamente dessa matemática cruel: avançar pode custar tudo; ficar parado também.
Amenábar usa o tempo como ferramenta narrativa. Informações são retidas, promessas são feitas sem garantia, decisões precisam ser tomadas com dados incompletos. Em alguns momentos, o humor surge como válvula de escape, quase sempre seco e breve, mais como tentativa de preservar dignidade do que de aliviar a situação. Funciona por segundos, nunca mais do que isso.
“O Cativo” se recusa a transformar sofrimento em espetáculo. O interesse está menos nos grandes eventos históricos e mais na erosão diária da liberdade. O filme observa como alguém aprende a sobreviver dentro de limites impostos, negociando cada passo como se fosse provisório. Ao final, o que fica não é sensação de vitória ou derrota, mas de tempo ganho, e, naquele contexto, tempo já é uma forma concreta de poder.
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