Há quem diga que quanto menor o orçamento de um filme, melhor tende a ser o resultado final nas telas. Isso porque, enquanto as superproduções hollywoodianas arrasa-quarteirões frequentemente apostam em personagens rasos, roteiros previsíveis e um excesso de efeitos especiais em detrimento de uma narrativa verdadeiramente inteligente, o cinema independente costuma provar que bons filmes nascem, sobretudo, de ideias fortes, atuações precisas e temas bem explorados. Evidentemente, essa não é uma regra absoluta, mas é um padrão que se confirma com frequência. Em “Shiva Baby“, Emma Seligman oferece mais uma prova convincente dessa lógica.
Com um orçamento estimado em apenas 200 mil dólares, cifra praticamente inconcebível para os padrões de Hollywood, “Shiva Baby“ foi filmado ao longo de 16 dias, inteiramente em uma única locação: uma casa em Flatbush, no Brooklyn. A produção ainda enfrentou uma limitação logística significativa: houve apenas dois dias em que todo o elenco principal esteve disponível simultaneamente para as cenas que exigiam maior movimentação e interação coletiva. Essas restrições, longe de empobrecer o filme, moldam diretamente sua forma e intensificam sua proposta.
O enredo se passa durante o shivá de uma conhecida distante da protagonista, Danielle (Rachel Sennott), uma jovem prestes a se formar que ainda não tem clareza sobre o próprio futuro. Vinda de uma família judaica tradicional, Danielle vive em permanente desalinhamento com as expectativas que recaem sobre ela. Feminista, bissexual e emocionalmente perdida, ela trabalha como sugar baby, embora diga aos pais que faz bicos como babá, sustentando uma rede de pequenas mentiras que, naquele ambiente social altamente regulado, está prestes a ruir.
Após um encontro com Max (Danny Deferrari), seu sugar daddy, Danielle segue para o shivá com a família. Lá, reencontra figuras do passado, incluindo sua ex-namorada, Maya (Molly Gordon), que representa tudo aquilo que Danielle não é naquele momento: organizada, segura, com um futuro profissional bem encaminhado rumo à advocacia. A situação se torna ainda mais constrangedora quando Max também aparece na casa, e, para o choque da protagonista, conhece seus pais. Forçados a improvisar uma história sobre como se conheceram, Danielle e Max acabam expondo fissuras profundas: ela mentiu sobre sua área de estudo; ele omitiu que é casado e pai de um bebê.
A partir daí, o filme se constrói como uma sucessão de situações socialmente sufocantes. Danielle é constantemente colocada diante de pessoas para as quais precisa performar maturidade, estabilidade e “respeitabilidade”, mesmo quando tudo conspira contra ela. Suas próprias mentiras voltam como armadilhas, e cada conversa casual se transforma em um pequeno interrogatório. A câmera colada ao rosto da protagonista, o burburinho incessante das conversas paralelas, o choro insistente do bebê e as perguntas invasivas dos convidados criam um retrato sensorial da ansiedade que domina Danielle. Seligman explora muito bem esse desconforto tão familiar a qualquer reunião de família: o peso das expectativas, a falsa cordialidade e a cobrança constante por respostas que ainda não existem.
Mesmo com uma locação única e um número limitado de personagens, “Shiva Baby“ jamais perde dinamismo. O filme não caminha rumo a um clímax tradicional, mas sustenta uma tensão contínua, quase física. Há sempre a sensação de que algo está prestes a explodir, não por grandes revelações, mas pelo acúmulo de pequenas agressões sociais. Danielle vive permanentemente na defensiva, enquanto o ambiente ao seu redor parece operar como um organismo coletivo pronto para expô-la.
Com humor seco, desconforto calculado e um olhar afiado sobre performances sociais, “Shiva Baby“ demonstra que é possível construir um filme aparentemente “sobre nada”: uma tarde, uma casa, conversas triviais, e ainda assim alcançar um retrato poderoso sobre identidade, expectativa e ansiedade contemporânea. Um filme pequeno apenas no orçamento, jamais em ambição e resultado.
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