“Sonhos de Trem” acompanha Robert Grainer (Joel Edgerton), um trabalhador braçal que cruza o oeste americano do início do século 20 aceitando serviços temporários enquanto tenta continuar vivendo depois de uma perda profunda. Clint Bentley filma essa trajetória sem pressa e sem enfeites, interessado menos no épico da expansão territorial e mais no esforço diário de alguém que precisa funcionar mesmo quando tudo desmoronou fora do horário de trabalho.
Robert não é um herói nem um símbolo grandioso. Ele é um homem calado, eficiente, que aprende a negociar silêncio, cansaço e deslocamento para garantir o básico. Edgerton constrói o personagem com economia, deixando que pequenos gestos e reações contidas revelem o peso que ele carrega. O luto não vira discurso nem catarse: aparece nas escolhas práticas, na forma como ele evita vínculos longos e aceita a solidão como parte do contrato.
Os encontros pelo caminho ajudam a desenhar esse mundo instável. Personagens interpretados por Clifton Collins Jr. e Felicity Jones surgem como presenças importantes, não para “salvar” Robert, mas para testar seus limites de convivência e resistência emocional. São relações de passagem, marcadas por trabalho, deslocamento e pela dificuldade de criar raízes quando tudo ao redor é provisório.
O filme acerta ao tratar o oeste em expansão como um espaço funcional, não romântico. Trilhos, frentes de trabalho e alojamentos improvisados não prometem futuro; oferecem apenas a chance de seguir em frente. Bentley observa como esse ambiente molda o comportamento de Robert, empurrando-o para a repetição e para uma rotina que protege, mas também esvazia.
Sem recorrer a grandes viradas ou explicações fáceis, “Sonhos de Trem” aposta numa experiência silenciosa e humana. É um drama que confia no espectador e encontra força justamente na simplicidade: mostrar um homem comum tentando se manter de pé, um dia de cada vez, num mundo que não espera ninguém.
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