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Terror que lucrou 7 vezes o próprio orçamento, com Julia Garner e Josh Brolin, agora na HBO Max Divulgação / New Line Cinema

Terror que lucrou 7 vezes o próprio orçamento, com Julia Garner e Josh Brolin, agora na HBO Max

Antes de assistir “A Hora do Mal”, ouvi de algumas pessoas que este seria o melhor filme de terror de 2025. Certo, vamos lá. Há, de fato, pontos positivos no novo trabalho de Zach Cregger, começando por uma premissa excelente e extremamente instigante, capaz de capturar o público apenas pela ideia central: dezenas de crianças de uma mesma turma do ensino infantil desaparecem numa mesma madrugada, exatamente às 2h17. Todas acordam em suas casas, saem de suas camas, descem as escadas, abrem a porta da frente e correm em direção à escuridão para nunca mais serem vistas.

No dia seguinte, apenas duas pessoas aparecem na sala de aula: a professora Justine (Julia Garner) e Alex (Cary Christopher), o único aluno que não desapareceu. É impossível não reagir com entusiasmo. Uau. Que ideia boa. Está aí a justificativa para a bilheteria sete vezes maior que o orçamento e para a disputa feroz entre estúdios pelos direitos do filme. “A Hora do Mal” foi tão cobiçado que seu orçamento de 38 milhões de dólares, muito acima da média do terror, garantiu a Cregger uma liberdade criativa rara dentro de Hollywood.

O problema começa no desenvolvimento da história.

Dividido em capítulos, o filme apresenta os acontecimentos a partir do ponto de vista de personagens diferentes, até que as narrativas convergem para um ponto comum e caminham para o desfecho. A ideia é interessante: um quebra-cabeça que se monta aos poucos, mantendo o espectador completamente preso. Comigo, funcionou. Mal olhei o celular durante suas mais de duas horas de duração. Eu realmente queria saber onde aquilo ia dar. Soma-se a isso um elenco realmente bom: as atuações são intensas, convincentes e, em muitos momentos, envolventes.

Agora, vamos ao que já não é novidade: a parte problemática.

O próprio Cregger admitiu tropeços no roteiro, mas não estou convencida de que eles não sejam, ao menos em parte, fruto de uma escolha consciente. O filme soa como mais um capítulo da história recente de Hollywood, que frequentemente menospreza a inteligência do público e aposta em um elemento de impacto para maximizar bilheteria. Sim, há muitos buracos no roteiro, e eles não são pequenos nem perdoáveis. Sem chance. O sucesso foi tamanho que já se fala em spin-off e até em prólogo. Imaginem isso: uma história cheia de buracos, ameaçando se expandir apenas porque deu dinheiro. Nada de novo nesse front, né?

A partir daqui, há spoilers.

A polícia afirma estar trabalhando incessantemente para resolver o desaparecimento de quase vinte crianças em uma cidade do interior da Pensilvânia. Um caso dessa magnitude teria repercussão nacional, talvez internacional, e todos os envolvidos estariam sendo investigados até as tampas. É razoável supor que o FBI já estivesse monitorando a vida de cada morador da região e vasculhando os passados mais remotos. Ainda assim, não é a polícia que se aproxima da solução, mas Archer (Josh Brolin), pai de um dos meninos desaparecidos, que consegue triangular em menos de meia hora a área para onde as crianças provavelmente foram.

Se Justine surge, a princípio, como a principal suspeita, Archer logo percebe que ela também pode ser vítima de algo maior e muito mais sinistro do que um simples sequestro de criancinhas. É então que entra em cena Tia Gladys (Amy Madigan), suposta parente de Alex. Uma figura caricata e misteriosa, possivelmente uma charlatã, que se infiltra na casa da família, hipnotiza os pais por meio de rituais satânicos, atrai as crianças e enfeitiça pessoas para que matem umas às outras.

Há diversas cenas de violência explícita, muitas delas completamente inúteis, que não se justificam narrativamente. E é aqui que o filme desmorona. Por que Gladys escolheu justamente a família de Alex?Por que sequestrar as crianças? Por que matar pessoas no processo? O que ela ganha com isso?

Não sabemos.

O filme não oferece respostas claras e transfere ao espectador o ônus da conjectura. Gladys estaria doente, usando as crianças como parte de um ritual para obter cura ou vida eterna? Não sabemos. Ela é realmente parente de Alex ou uma impostora? Também não sabemos. Por que a turma específica de Justine? Nenhuma resposta.

Gladys existe porque existe. Faz o que faz porque faz. Não há lógica interna sólida, não há motivação consistente, não há explicação, apenas vazio. E o filme termina assim mesmo, apostando em uma tensão que se esgota rápido. “A Hora do Mal” satisfaz apenas um desejo primitivo e pueril por emoção momentânea, deixando para trás uma história sem sustentação e sem consequência.

Filme: A Hora do Mal
Diretor: Zach Cregger
Ano: 2025
Gênero: Mistério/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.