Por mais forte que seja o amor, casamentos, por óbvio, não estão livres de problemas. Mal-entendidos grandes ou pequenos tornam-se obstáculo à felicidade, estabelecer uma convivência sem as atribulações que envenenam o casal transforma-se num desafio rotineiro, comportamentos antes tidos como desagradáveis apenas viram tortura, desconfianças bobas turvam de breu horizontes rosicleres. Ao misturar suspense a um drama de família que expõe suas camadas sem pressa, Gonzalo Perdomo discorre sobre relações à beira do colapso e faz de “A Fiança” uma das mais apuradas produções do gênero. O filme de Perdomo junta-se a “O Vazio do Domingo” (2017), dirigido por Ramón Salazar, um dos melhores sobre o tema já feitos; “Durante a Tormenta” (2018), levado à tela por Oriol Paulo; e “Destinos à Deriva” (2023), a cargo de Albert Pintó, e o fato de os quatro serem espanhóis não é mera coincidência. Parece ter se desenvolvido entre os diretores do cinema espanhol recente o gosto — e o talento — por escrutinar a intimidade alheia, aludindo aos mestres da arte cinematográfica da Espanha.
As aparências enganam
Uma festa de aniversário infantil mascara as verdadeiras intenções de Perdomo. Crianças reúnem-se em volta da piscina de uma casa ostentosa, enquanto Ana, a anfitriã, desdobra-se para garantir que tudo saia a contento. Laura, a aniversariante, gosta de ser mimada, porém talvez achasse melhor ficar com os doces só para si, e quando o convescote acaba, parece que ela e a mãe podem, finalmente, gozar de algum sossego. Relaxada, Ana sobe para os seus aposentos, tira os sapatos e já ia trocar de roupa e soltar o cabelo, mas desce, porque batem à porta. Só aí é que o espectador se dá conta de que Ricardo, o pai de Laura não estava na festa da filha, enigma que o diretor e o corroteirista Andrés Martorell passam a concentrar na figura de Walter, o sujeito que aparece de chofre.
O sangue ferve
Ninguém duvida de que há qualquer coisa de muito esdrúxula na presença de Walter, mas o que seria? Seu comportamento invasivo desperta suspeitas, e aos poucos nota-se que aquele semblante plácido oculta um gângster truculento, que veio a mando de gente ainda pior. O diretor embaralha a narrativa um tanto mais quando Ana fica sabendo que essa vida de luxo só tornou-se possível graças às atividades criminosas de Ricardo, mas ele não tem sido útil como antes e Walter vai dar uma solução ao problema. O protocolo da quadrilha incluem fazer da mansão o cativeiro do casal, e a tensão vai crescendo à medida que o capanga da máfia instiga Ana a fazer a Ricardo as perguntas que o público também quer fazer. Magicamente, a personagem de Juana Acosta impõe-se e conduz o filme para cadências mais aceleradas, vitaminando assim as atuações de Julián Román e Israel Elejalde. Diante do estranho, o confronto entre Ana e Ricardo desmonta, enfim, a ilusão do casamento à prova de falhas, embora Perdomo opte pelo exagero. Congregar família e dinheiro aqui é um péssimo negócio.
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