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Romance policial de Agatha Christie que virou série hipnotizante na Netflix é seu programa perfeito para o fim de semana Divulgação / Netflix

Romance policial de Agatha Christie que virou série hipnotizante na Netflix é seu programa perfeito para o fim de semana

“Os Sete Relógios de Agatha Christie” parte de uma brincadeira de mau gosto para montar um mistério que cresce rápido e cobra um preço alto de quem tenta fingir normalidade. Em uma mansão inglesa marcada por regras sociais rígidas, um grupo de hóspedes decide pregar uma peça em Gerry Wade (Corey Mylchreest), espalhando despertadores por seu quarto. Quando a situação foge do controle, o que era riso vira silêncio constrangido, e a sensação de que algo sério precisa ser investigado se impõe desde cedo.

No centro da história está Lady Eileen “Bundle” Brent (Mia McKenna-Bruce), uma jovem que se recusa a aceitar explicações fáceis. Bundle observa detalhes, insiste em perguntas incômodas e não se intimida com a hierarquia social que tenta enquadrá-la. Mia McKenna-Bruce constrói a personagem com energia e curiosidade genuína, fazendo com que a investigação pareça menos um jogo intelectual e mais uma necessidade pessoal de entender o que realmente aconteceu naquela casa.

Jimmy Thesiger (Edward Bluemel) surge como aliado fundamental nesse percurso. Ele ajuda a organizar informações, confrontar versões contraditórias e sustentar a desconfiança quando o ambiente pede esquecimento rápido. Bluemel dá ao personagem um tom atento e levemente ansioso, alguém que percebe o perigo de mexer em assuntos delicados, mas segue em frente mesmo assim. A relação entre Jimmy e Bundle não depende de grandes discursos, e sim de ações práticas, trocas rápidas e decisões que empurram a trama adiante.

Do outro lado está o Superintendente Battle (Martin Freeman), figura experiente que conhece bem os limites entre investigação oficial e pressão social. Freeman aposta na contenção, deixando claro que Battle mede cada passo, avalia quem pode ser confrontado e quando recuar é a única forma de avançar depois. Sua presença traz peso e credibilidade à narrativa, além de reforçar o contraste entre a inquietação dos mais jovens e o ceticismo de quem já viu muitos casos serem abafados.

Boa parte da tensão vem justamente desse choque entre aparência e verdade. A casa de campo, os jantares educados e as conversas cordiais funcionam como uma camada de proteção para segredos que ninguém quer expor. A série observa com ironia como pequenos gestos: um relógio fora do lugar, uma porta fechada, uma resposta atravessada revelam mais do que longas explicações. Há momentos de humor discreto, quase desconfortável, que ajudam a humanizar os personagens sem quebrar o clima de suspeita.

Dirigida com sobriedade, a adaptação evita exageros e confia no ritmo da investigação. As informações surgem aos poucos, sempre ligadas a decisões claras dos personagens e às consequências dessas escolhas. Ninguém faz perguntas sem pagar algum preço, seja em prestígio, confiança ou segurança. Esse cuidado mantém o suspense vivo e impede que a história vire apenas um quebra-cabeça elegante.

Sem entregar reviravoltas ou soluções, “Os Sete Relógios de Agatha Christie” funciona como um mistério sólido e bem conduzido, interessado menos em truques e mais em comportamento humano. Ao colocar seus personagens diante de dilemas concretos e desconfortáveis, a obra mostra que, em certos ambientes, descobrir a verdade pode ser mais perigoso do que mantê-la escondida.

Filme: Sete Relógios
Diretor: Chris Chibnall
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★