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Quando a doçura e a rebeldia se encontram: romance com Winona Ryder na Disney+ e Mubi vai te fazer rir para as paredes Divulgação / Metro-Goldwyn-Mayer Studios

Quando a doçura e a rebeldia se encontram: romance com Winona Ryder na Disney+ e Mubi vai te fazer rir para as paredes

“Minha Mãe é uma Sereia“ não foi exatamente um sucesso à época de seu lançamento e dividiu a crítica, recebendo alguns elogios, mas também ressalvas. Apontado como um filme de ritmo irregular e tom instável entre o drama e a comédia, o longa poderia ter sido facilmente esquecido após sua estreia, mas acabou entrando para o panteão dos clássicos cults dos anos 1990. O que explica isso? Em primeiro lugar, as atuações magnéticas de Cher, Winona Ryder e Christina Ricci, além de um olhar sensível para a experiência feminina em um contexto social específico. Sedutora e misteriosa, Cher encarna Rachel Flax, uma mãe solteira que vive pulando de cidade em cidade, nunca permitindo que suas filhas se acostumem com um lugar ou com a ideia de rotina. Em paradoxo, a adolescente Charlotte (Ryder) e a pequena Kate (Ricci) desejam estabilidade e sonham, cada uma à sua maneira, com a possibilidade de finalmente permanecer em algum lugar.

Mas as mudanças para Rachel são algo vital, porque permitem que ela fuja do medo do fracasso, dos relacionamentos amorosos e da necessidade de fincar raízes onde não sabe se dará certo. Mudar é uma forma de adiar o erro, de nunca precisar encarar o momento em que algo desmorona. Incapaz de lidar com a possibilidade da estagnação, do abandono ou da rejeição definitiva, ela se mantém em movimento, transformando a instabilidade em estilo de vida e em identidade.

A protagonista é, sobretudo, Charlotte. O enredo acompanha seu amadurecimento para a idade adulta, para a vida sexual e para uma abertura emocional que ela reluta em aceitar. Charlotte é tímida, puritana e profundamente religiosa, em contraste direto com a mãe, frequentemente alvo de fofocas por onde passa por seduzir diversos homens e desafiar convenções morais. Chamar atenção não é um problema para Rachel, que gosta de incomodar e ser o centro das atenções, desde que de forma passageira. Essa é sua maneira de provocar e, ao mesmo tempo, de se proteger: uma forma de esnobar as pessoas e devolver à sociedade o julgamento que sempre sentiu sobre si. Kate funciona como um ponto de equilíbrio entre personalidades tão diferentes e intensas. Talentosa na natação, ela sonha em quebrar o recorde mundial de tempo de mergulho e competir nas Olimpíadas, canalizando suas angústias em um objetivo quase mítico.

Quando Charlotte se apaixona pelo vizinho Joe, ela se vê diante da possibilidade de perder a virgindade e encarar a culpa religiosa associada ao desejo, algo que a faz se sentir constantemente observada e condenada. Enquanto isso, Rachel tenta empurrar a filha para a vida adulta, mas carrega o medo silencioso de que ela repita seu próprio destino, engravidando cedo demais. Lou (Bob Hoskins) é o namorado que realmente impacta Rachel. Não porque ela se sinta apaixonada como nunca antes, mas porque ele representa algo que ela nunca espera de um homem: a intenção real de ficar, de construir uma família e oferecer estabilidade. Esse relacionamento vira um desafio inédito para a matriarca, que se vê, pela primeira vez, confrontada com a possibilidade concreta de parar, e isso a deixa profundamente desnorteada.

“Minha Mãe é uma Sereia“ não guarda grandes surpresas ou reviravoltas, embora flerte pontualmente com clímax dramáticos. Ainda assim, o filme é menos interessado em choques narrativos do que em construir um estudo de personagens, observando comportamentos, contradições e dinâmicas familiares. O impacto não vem do que acontece, mas da identificação: o público reconhece essas fragilidades, esses medos e essas tentativas de pertencimento, sentindo-se acolhido por elas. Dirigido por Richard Benjamin, com delicadeza visual, trilha nostálgica e uma narração em off que reforça o caráter memorialista da história, o longa mistura doçura, feminilidade e rebeldia em uma coisa só, e vence exatamente por isso.

Filme: Minha Mãe é uma Sereia
Diretor: Richard Benjamin
Ano: 1990
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.