Uma mulher amargurada é capaz de tudo. Essa é a primeira impressão acerca de “Guerra Oculta”, um thriller psicológico protagonizado por uma agente do FBI tentando lidar com a morte recente do marido e da filha pequena, num atentado terrorista. A diretora Sophia Banks segue todos os mandamentos do bom enredo, porém seu filme peca ao exigir de Abby Trent, essa mártir com sede de vingança, um rol de qualidades que ninguém teria — muito menos uma pessoa numa condição tão singular. Diante dos muitos perigos que enfrentamos, é o medo quem nos alerta quando algo parece fora de lugar, nos impedindo de cair no abismo da bravura sem reflexão. Abby, no entanto, está sempre disposta a travar mais uma batalha. Por isso ela é tão inverossímil.
Mulher-Maravilha?
Os roteiristas John Collee e Jinder Ho urdem flashbacks ligeiros em que Abby aparece em momentos de lazer com seus parentes agora defuntos, para, poucos instantes depois, levar a história para algum lugar do Oriente Médio, onde ela administra uma instalação secreta para detentos de altíssima periculosidade. Hatchet, o atual inimigo público número um da América, vai parar lá, e então Abby tem um motivo forte para crer que não pode desistir. Hatchet é ninguém menos que o responsável pelo assassinato do marido e da filha de Abby e ela não tem pejo nenhum de disfarçar seu desejo de reparação, deixando de lado seu compromisso de manter a ordem e a segurança institucional mediante a observância da lei. A essência justiceira aflora nela de forma a lembrar as heroínas dos quadrinhos e desenhos animados, sem um contraponto sólido com a vida real.
Pane no sistema
Vítima de sabotagem e de policiais que não confiam nela, Abby enfrenta também uma carga de misoginia e sexismo, desdobrados por Banks de maneira um tanto atabalhoada, sem nuanças, como se seu gênero fosse por si só uma boa garantia de competência e de profissionalismo. Ela não falha nunca, parece adivinhar as jogadas de Hatchet e por pouco não se perde de vista a ideia original, de uma mulher fragilizada que busca recobrar a vida. O desfecho em aberto, com os personagens de Michelle Monaghan e Jason Clarke como símbolos antagônicos de um sistema feito para não dar certo, salva “Guerra Oculta” do desastre absoluto. Até lá, é necessário muita paciência.
★★★★★★★★★★




