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Um filme que te faz mudar de lado no meio da história — e você nem percebe (Prime Video) Jaana Rannikko / Media Luna New Films

Um filme que te faz mudar de lado no meio da história — e você nem percebe (Prime Video)

Sem buscar espetáculo, “A Virada Errada” coloca Laura Birn, Eero Aho e Mari Rantasila num drama de 2015 dirigido por Petri Kotwica. A história segue um casal que, a caminho do hospital para o nascimento do bebê, bate em algo na estrada e decide não parar, e a recém-mãe depois tenta descobrir se o coma de um homem atropelado e abandonado tem ligação com o que ela própria viveu naquela noite.

A trama se organiza como um encadeamento de escolhas que parecem menores do que são. Seguir adiante preserva o objetivo imediato de chegar ao hospital, mas cria um obstáculo que cresce quando a vida tenta voltar ao normal e a realidade insiste em reaparecer por vias laterais, um comentário casual, uma notícia, uma mudança de humor em quem está por perto. A consequência é concreta, o casal passa a recalcular o que diz, a quem diz e quando diz, e esse cálculo consome tempo e intimidade num período em que tudo deveria estar voltado ao bebê.

A decisão que não passa

Parar significaria encarar o desconhecido e assumir responsabilidade sem saber o tamanho do dano. Continuar é apostar que o desconhecido não terá nome, rosto, família, ou melhor, apostar que a história ficará sem dono. O filme explora essa aposta como uma forma de autopreservação que parece prática no instante e se torna corrosiva depois, porque cada tentativa de manter o cotidiano funcionando cobra um preço, a confiança entre os dois vira negociação, o cuidado com a casa vira vigilância, e o que era urgência médica se transforma em permanência moral.

O hospital funciona como espaço onde o problema ganha corpo social. Ao se aproximar da mulher do paciente em coma, a protagonista encosta a própria experiência numa dor que é pública e verificável, com testemunhas, versões e expectativas de justiça. A amizade, que poderia ser apenas acolhimento, vira também risco narrativo, porque aproxima mundos que não deveriam se tocar e obriga decisões cada vez mais práticas, oferecer apoio e se expor, manter distância e parecer fria, dizer pouco e alimentar suspeita, falar demais e perder controle sobre o que será entendido.

Suspense de autoproteção

O suspense nasce quando a personagem precisa investigar e se proteger ao mesmo tempo. Ela tenta checar versões, testa o que o companheiro admite, mede o que pode ser dito sem virar confissão, e a pressão aumenta de modo mensurável, já que o tempo encurta e a margem para um gesto “normal” diminui a cada conversa. Trancar-se, vigiar, esconder informação, adiar um encontro, mudar o caminho, tudo vira uma decisão com efeito imediato, não porque o filme grite perigo o tempo todo, mas porque ele mostra como o ambiente passa a reagir à mínima tentativa de manter o assunto sob controle.

O preço de continuar

Kotwica evita transformar a história em sermão e prefere seguir o desgaste. O que fica não é alívio, é a sensação de que um gesto de autopreservação, compreensível no calor do instante, reconfigura uma vida quando encontra o sofrimento do outro e exige resposta. No fim, tudo parece voltar ao mesmo lugar onde o mundo se encontra e ninguém consegue mentir com conforto, o corredor do hospital.

Filme: A Virada Errada
Diretor: Petri Kotwica
Ano: 2015
Gênero: Drama/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★