“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, começa como uma história de fuga e nunca abandona essa sensação. Lá atrás, em 2009, Bob (Leonardo DiCaprio), ainda conhecido como Pat Calhoun, fazia parte do grupo revolucionário de extrema esquerda French 75. Ao lado de Perfidia (Teyana Taylor), sua então parceira, ele acreditava estar lutando contra injustiças reais, mesmo que isso significasse explodir prédios, assaltar bancos e cruzar qualquer limite moral em nome de uma causa que eles próprios mal conseguiam definir. Desse relacionamento nasce Willa, e é justamente a paternidade que muda tudo: quando Perfidia abandona a filha para seguir na militância, Bob foge com a menina e desaparece do mapa.
Dezesseis anos depois, encontramos outro homem. Bob agora é um sujeito isolado, exausto, constantemente entorpecido por drogas e álcool, vivendo com Willa (Chase Infiniti) em uma espécie de esconderijo emocional e físico. Ele não é mais um revolucionário, é um pai apavorado tentando proteger a filha do mundo que ele mesmo ajudou a criar. Esse equilíbrio precário desmorona quando reaparece o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um militar corrupto, violento e ideologicamente oposto a Bob, mas tão extremo quanto ele já foi. Lockjaw não é apenas um vilão funcional: é um homem movido por ressentimento, obsessão e poder, que transforma a perseguição a Bob e Willa em uma cruzada pessoal.
A partir daí, o filme se assume como um jogo de gato e rato. Anderson deixa claro que não está interessado em heróis ou vilões “puros”. Bob é falho, covarde em muitos momentos, frequentemente irresponsável. Lockjaw, por sua vez, é monstruoso, mas também patético, um sujeito que se agarra à ideologia como desculpa para exercer crueldade. O embate entre os dois expõe o ponto central do filme: quando ideologias viram identidade absoluta, o resultado não é justiça, é destruição.
O problema é que Anderson, dessa vez, nem sempre confia na inteligência do próprio filme. A crítica ao extremismo político é válida, mas por vezes soa didática demais, como se o diretor sentisse necessidade de sublinhar sua mensagem. Há momentos em que a narrativa perde a ambiguidade que sempre foi sua maior força e escorrega para um discurso mais direto, quase panfletário. Ainda assim, isso nunca chega a tornar o filme raso, apenas menos afiado do que poderia ser.
Tecnicamente, é um espetáculo. A câmera transforma desertos, túneis e esconderijos em espaços vivos, quase sufocantes. A montagem é ágil, surpreendentemente leve para um filme longo, e cria uma sensação constante de movimento, como se ninguém ali pudesse realmente parar. Há humor, um humor seco, desconfortável, que nasce do absurdo das situações e da decadência dos personagens, e ele funciona justamente porque nunca quebra o clima de ameaça.
Leonardo DiCaprio entrega uma de suas performances mais humanas dos últimos anos. Seu Bob é um homem quebrado, longe do carisma habitual do ator, alguém que sabe que falhou como revolucionário, como companheiro e quase como pai. Sean Penn, por outro lado, é assustador sem precisar exagerar: Lockjaw entra em cena como uma força inevitável, um sujeito que acredita tanto no próprio discurso que já não enxerga ninguém como humano. Chase Infiniti traz uma Willa observadora, menos ingênua do que o pai imagina, funcionando como o olhar moral mais silencioso do filme. Benicio del Toro, como Sergio Carlos, adiciona uma camada de ironia e desgaste à velha militância, alguém que parece saber que tudo aquilo já passou do ponto há muito tempo.
“Uma Batalha Após a Outra” não é um filme confortável, nem pretende ser. Ele provoca, irrita, diverte e, às vezes, se perde na própria ambição. Mas mesmo quando falha, falha tentando dizer algo grande. Anderson constrói uma história sobre um pai e uma filha em fuga, mas o que realmente está em jogo é o retrato de um país, e de pessoas, presas em guerras ideológicas que nunca terminam. Não é seu filme mais sutil, nem seu mais profundo, mas ainda é cinema adulto, inquieto e cheio de personalidade. E isso, hoje, já é muito mais do que a maioria entrega.
★★★★★★★★★★




