Uma romancista chega ao Marrocos procurando silêncio, distância e uma disciplina que volte a funcionar. Em “Amores Solitários”, Susannah Grant dirige Laura Dern, Liam Hemsworth e Diana Silvers numa história em que Katherine Loewe se aproxima de Owen Brophy, preso a uma relação que o traz ao retiro, e o vínculo entre os dois cresce até exigir uma decisão que nenhum deles queria formular.
Katherine tenta escrever e, ao mesmo tempo, se proteger do tipo de sociabilidade que transforma intimidade em performance. O retiro oferece paisagem e conforto, mas também impõe convivência, curiosidade e uma sensação de vitrine que torna o isolamento difícil de sustentar. Owen chega como acompanhante de Lily Kemp e logo percebe o próprio deslocamento, sem linguagem para circular naquele ambiente, sem função clara ali dentro, e essa falta de lugar o empurra para a única conversa que não cobra pose.
Retiro sem refúgio
Katherine insiste em reduzir o mundo ao trabalho, como se a escrita pudesse bloquear o resto. O obstáculo é que o retiro não é uma biblioteca, é um microcosmo, e o filme encontra tensão no modo como a privacidade vira moeda. Quando ela recua de encontros e pequenos rituais coletivos, o gesto é lido como julgamento ou frieza, e a consequência é que a solidão deixa de ser escolha silenciosa e passa a ser assunto.
Owen tenta acompanhar Lily e manter uma imagem de apoio estável, mas a dinâmica entre eles se torna uma conta que não fecha. Ele evita confronto, ela exige reconhecimento, e o desequilíbrio aparece nas frestas do cotidiano, no que fica sem resposta, no que vira cobrança indireta. Ao procurar ar fora desse circuito, Owen esbarra em Katherine, e a aproximação funciona primeiro como alívio imediato, porque com ela ele não precisa provar pertencimento, só precisa dizer a verdade do próprio desconforto.
Idade, papel, expectativa
A relação cresce no espaço entre o que cada um pede e o que cada um consegue oferecer sem se trair. Katherine carrega uma vida já consolidada e um cansaço que a impede de tratar o desejo como recomeço fácil, enquanto Owen se move entre a vontade de romper com o que o desgasta e o medo de parecer irresponsável, e, quando ele a procura de novo, o gesto soa ao mesmo tempo como coragem e como fuga, porque ele não diz que está desistindo da própria vida, mas começa a agir como se estivesse, e ela percebe isso antes de admitir que gosta da sensação de ser vista fora do papel que a consagrou.
O romance, então, não acontece como catarse, acontece como atrito. A diferença de idade e de mundo não vira slogan, vira ruído concreto, porque o que para um é liberdade para o outro pode ser ameaça, e o que para um é cuidado para o outro pode soar como controle. Grant evita transformar isso em tese e prefere deixar a tensão aparecer na logística dos encontros, no que é combinado, no que é escondido, no que precisa ser explicado depois, e o resultado é que a paixão nunca vem limpa, ela vem com custo embutido.
A partir do momento em que os dois saem da bolha do retiro e o filme se abre para a estrada e para o litoral, o tempo parece alongar. Essa mudança de espaço altera o peso das decisões, porque o que ali era murmúrio em corredor vira escolha com consequência real. A intimidade ganha ar, mas também perde proteção, e o que parecia possível sob a licença da viagem começa a pedir lastro.
O que a viagem cobra
Owen passa a reavaliar o próprio trabalho e o tipo de ambição que ele vinha aceitando sem discutir, e essa reavaliação não é conversa bonita, é risco material, é ficar sem plano claro, é ter de responder por si. Katherine, por sua vez, tenta separar amor e escrita, mas o obstáculo é que ela pensa em frases, ela organiza a vida em narrativa, e o vínculo com ele ameaça virar matéria, não presença. Quando os dois percebem que a história deles pode virar apenas lembrança bem escrita, o romance ganha uma camada mais áspera, porque a pergunta deixa de ser se há sentimento e vira se há coragem para sustentar esse sentimento fora do cenário que o permitiu.
“Amores Solitários” funciona melhor quando recusa a fantasia de cura rápida e aceita que conexão também pode expor. Grant filma o encontro como algo que abre portas e, ao mesmo tempo, aumenta a exigência de honestidade, sem santificar ninguém e sem reduzir a diferença a choque de gerações. No fim, a imagem que permanece é menos a do lugar exótico e mais a do retorno ao trabalho, com Katherine encarando a tela em branco e digitando.
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