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O filme que vai testar seus limites morais — e tem Naomi Watts + Robin Wright, no Prime Video Divulgação / Gaumont

O filme que vai testar seus limites morais — e tem Naomi Watts + Robin Wright, no Prime Video

Num litoral onde todo mundo se reconhece, a proximidade vira regra prática e qualquer gesto ganha peso. Em “As Mães Proibidas” (2013), Anne Fontaine dirige Naomi Watts, Robin Wright e Xavier Samuel em um romance dramático de tabus domésticos. O conflito central é direto: duas amigas de longa data se envolvem romanticamente com os filhos uma da outra, e o pacto de confiança começa a operar sob risco público. A câmera observa esse desvio com calma, sem pressa de justificar, e transforma pequenas decisões em marcos sociais. Quando a intimidade atravessa o limite combinado, a vida cotidiana passa a exigir cálculo.

A história parte de uma premissa conhecida, mas encontra singularidade no material de origem e no recorte de escrita. O roteiro de Christopher Hampton adapta a novela “The Grandmothers”, de Doris Lessing, e deixa o choque no subtexto, como algo que a linguagem evita nomear por muito tempo. Fontaine, em seu primeiro longa em língua inglesa, prefere um desenho de relações que se estende no tempo e testa resistência, não apenas desejo. O drama se organiza como um acordo silencioso, quase um protocolo informal, que precisa atravessar férias, visitas e retornos ao mesmo lugar. Cada repetição amplia o preço.

Pacto íntimo sob vigilância

Fontaine trata a cidade litorânea como espaço de circulação curta, feito de caminhos repetidos, areia e varandas sempre à vista. A luz clara e a fotografia limpa transformam o que poderia ser segredo em evidência, e a distância da câmera mantém o espectador no papel de testemunha, não de cúmplice. Em vez de acentuar o escândalo, a encenação insiste na rotina que continua, com compromissos marcados e encontros que deixam rastros. O romance surge envolto por paisagens de verão, mas a sensação é de inverno moral, e isso endurece a convivência.

Dentro de uma casa, Watts e Wright trabalham com economia de frase e um senso agudo de risco social. Lil e Roz se movem entre cuidado e posse, sem pose de heroína e sem caricatura de transgressão, e a atuação privilegia hesitação, não certeza. Quando o desejo avança, a narrativa desloca a atenção para o que se perde na convivência diária: privacidade, estabilidade e a linguagem comum que sustentava a dupla. Cada conversa parece pedir uma cláusula nova para continuar de pé, e o silêncio vira parte do contrato.

Reputação como força externa

Quando a relação cruzada se impõe, o atrito mais duro vem de fora, na vizinhança e nas regras não escritas da comunidade. Convites diminuem, olhares se prolongam, e a reputação passa a ser contabilizada como patrimônio que pode evaporar em poucos dias. Fontaine observa esse mecanismo sem discursos condenatórios, com atenção para a forma como a cidade administra desvios pelo isolamento gradual. O romance aparece menos como aventura e mais como compromisso, com limites improvisados e cobrança acumulativa. A consequência mais imediata é a perda de circulação social.

A partir daí, o drama encosta em instituições que não se movem com facilidade, como casamento, maternidade e pacto geracional. Os dois jovens no centro do desejo recebem uma escrita que evita transformá-los em simples provocação, deixando que responsabilidade e conflito também recaiam sobre eles. A presença de famílias em torno, mesmo quando não ocupa o primeiro plano, redefine o alcance de cada escolha e impede que a história se feche em segredo a dois. O que era privado ganha efeito em cadeia, e o gesto íntimo vira argumento em mesas e corredores, com dano já instalado.

Temperatura alta e controle formal

Na superfície, a estética mantém suavidade quase publicitária, o que torna mais estranho o contraste entre imagens de verão e decisões que endurecem. A montagem evita picos e sustenta um ritmo de desgaste, enquanto a trilha sonora surge como comentário discreto, sem empurrar emoção para o melodrama. Essa opção pelo controle preserva a dignidade das personagens e abre espaço para ambiguidade, ainda que reduza a vibração de perigo em alguns momentos. O resultado é uma tensão que não explode, mas corrói, e deixa marcas de longa duração.

No fim, “As Mães Proibidas” aposta no incômodo que nasce da convivência, não de reviravolta. O que estava protegido por amizade e hábito passa a exigir administração diária, como um protocolo informal lembrado a cada encontro e cada despedida. Fontaine encerra sem oferecer conforto fácil, mantendo a história presa ao olhar social que acompanha a cidade litorânea desde o começo. Sem promessa de reparação rápida, cada personagem retorna à própria porta com uma escolha prática para sustentar no dia seguinte.

Filme: As Mães Proibidas
Diretor: Anne Fontaine
Ano: 2013
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★