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Filme que revelou Joachim Trier, um dos diretores cotados ao Oscar 2026, redefiniu o cinema norueguês contemporâneo e está na MUBI Divulgação / Spillefilmkompaniet 4 1/2

Filme que revelou Joachim Trier, um dos diretores cotados ao Oscar 2026, redefiniu o cinema norueguês contemporâneo e está na MUBI

Longa-metragem de estreia do cineasta norueguês nascido na Dinamarca, Joachim Trier, “Começar de Novo” inicia aquilo que mais tarde seria reconhecido como a Trilogia de Oslo, ao contar a história de dois amigos aspirantes a escritores, Philip (Anders Danielsen Lie) e Erik (Espen Klouman Høiner). Trier coescreveu o roteiro com o amigo Eskil Vogt, e ambos se basearam em experiências pessoais ligadas à juventude, amizade e ambição, embora o filme não seja autobiográfico. Há também influências da Nouvelle Vague, movimento do cinema francês dos anos 1960, e de “A Lição do Mestre”, livro de Henry James, que inspirou diretamente a construção dos personagens e da dinâmica entre eles. Para que a narrativa soasse natural e fluida, sem cair em clichês de filmes de amadurecimento, o roteiro levou cerca de cinco anos para ficar pronto.

O filme começa com os dois amigos colocando os esboços de seus respectivos livros nos correios, endereçados a editoras. Philip, que é mais retraído, obsessivo e apresenta sinais de uma angústia preexistente, tem seu livro aprovado por uma editora, é publicado e bem-recebido pela crítica. Erik não tem a mesma sorte, mas é socialmente mais apto que Philip e lida melhor com os espaços de convivência literária. Após alcançar o tão almejado reconhecimento profissional, Philip sofre um colapso emocional e passa um período internado. O problema, no entanto, não ocorre por causa do sucesso em si, mas porque Philip organizava sua vida em torno da realização do sonho de se tornar um escritor reconhecido. Quando alcança aquilo que dava sentido à sua existência, ele perde a noção de quem é fora dessa ambição. É em Kari (Viktoria Winge) que Philip encontra algum tipo de conforto, embora o romance não lhe traga equilíbrio real, já que desde o início há dificuldades de comunicação e de compreensão das necessidades emocionais de ambos.

Enquanto isso, Erik continua tentando se firmar no mercado editorial. Ele eventualmente tem seu livro publicado, mas a recepção crítica é mais discreta do que a do amigo. Não há, no entanto, ciúme ou ressentimento entre eles por causa disso. Erik em nenhum momento se sente ameaçado pelo sucesso de Philip. É o próprio Philip que se perde de si mesmo nesse processo. Erik, por sua vez, não se afasta. Ele permanece ao lado do amigo, acompanha sua recuperação e tenta ajudá-lo a lidar com o sofrimento psíquico. Ao redor deles, orbita um grupo de amigos que funciona como contraponto e alívio cômico. São figuras barulhentas, imaturas e muitas vezes performáticas, adultos ainda presos a comportamentos juvenis que contrastam com a seriedade, a introspecção e o foco intelectual de Philip e Erik, ao mesmo tempo em que quebram essa rigidez e tornam o ambiente menos solene.

Sem clímax tradicional, o longa de Joachim Trier observa como as amizades se transformam à medida que a vida avança e as expectativas juvenis dão lugar a realidades mais concretas. Os conflitos não se resolvem como em um passe de mágica, nem há grandes revelações redentoras. Não ocorre uma transformação radical nos dois personagens centrais; eles apenas seguem adaptando suas vidas às novas circunstâncias, aprendendo a conviver com a perda das fantasias que antes organizavam seus desejos.

Filme: Começar de Novo
Diretor: Joachim Trier
Ano: 2006
Gênero: Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.