Seja pela relevância do assunto, seja pelo alcance mercadológico, os filmes de guerra têm lugar garantido no cinema, por preservarem o caráter belicoso dessas narrativas enquanto diretores esmeram-se por contextualizar os eventos apresentados, quase sempre espinhosos, intrincados, que dependem da justa construção dramática para que façam sentido e, por óbvio, o espectador os absorva. Diferentes visões de um fato histórico, expostas e mesmo defendidas por diretores que mudam-se para aquele universo por meses a fio, vêm à tona em produções muito bem-cuidadas, que põem por terra um rol de verdades suspeitas. É o que Dennis Gansel quer com “O Tanque de Guerra”, uma história que evita obviedades ao passo que joga luz sobre uma polêmica.
O diretor e o corroteirista Colin Teevan voltam ao outono de 1943, quando o tenente Philip Gerkins e seus homens operam um tanque Tiger numa ponte. Está em curso a Batalha do Dnieper, que colocou nazistas e soviéticos em lados antagônicos, e na Terra de Ninguém, entre os dois territórios, está escondido num bunker o tenente Paul von Hardenburg, que precisa ser resgatado. Paulatinamente, Gansel destrincha um dos grandes embaraços da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), um ato de bravura orquestrado pelos tanquistas de Hitler, conduzindo seu trabalho com dignidade, evitando conceitos maniqueístas. Inexperientes, inseguros, vulneráveis, uma boa parte do contingente apavora-se com a possibilidade de não mais voltar para casa, ainda que precise desempenhar suas atribuições — sem saber direito para quê. Esses rapazes nem sempre agressivos, quase nunca truculentos, não estão felizes.
Gansel reserva a cada um dos personagens o seu próprio momento, compondo diálogos fortes para atuações cheias de tons. Na pele de Philip, David Schütter galvaniza um elenco harmonioso, que entende a proposta do filme e por ele chega a Michel, o soldado ingênuo de Yoran Leicher; a Keilig, o tipo cerebral de Sebastian Urzendowsky; à impávida decência de Christian Weller, com um Laurence Rupp que oferece as passagens mais tocantes, e ao diversionismo de Helmut, um anti-herói que Leonard Kunz reveste de camadas tragicômicas. A sequência em que o intrépido quinteto depara-se com o Samokhodnaya Ustanovka 100, o SU-100, o canhão autopropulsado de cem milímetros usado pelas tropas de Stalin, mantém esse espírito rebelde de iconoclastia e um humor involuntário, mas com método, ratificando a vocação da indústria cinematográfica germânica para a análise sociopolítica.
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