Uma percepção nova surgiu quarenta anos atrás em várias partes do mundo e, aos poucos, moldou as formas do pensamento contemporâneo. A ideia de progresso deixou de orientar as discussões. Os motivos dessa mudança podem estar nas crises econômicas das décadas de 1970 e 1980 e, agora, nas mudanças climáticas, que levaram ao pessimismo. E, como sempre ocorre, a produção cultural capturou aquele momento em que o amanhã não será melhor que o hoje e o ontem. Mais especificamente, notou-se uma desistência do futuro.
Três filmes sintetizaram bem a ideia de cancelamento do futuro. Os próprios títulos das obras evidenciam a questão do tempo: “O Exterminador do Futuro” (1984), de James Cameron; “De Volta Para o Futuro” (1985), de Robert Zemeckis; e “Peggy Sue — Seu Passado a Espera” (1986), de Francis Ford Coppola. São narrativas populares, de grande audiência, que trouxeram para o centro do debate uma discussão filosófica que ocorria nos nichos acadêmicos e intelectuais.

As narrativas citadas representam o momento em que a ideia de futuro deixou de funcionar como um horizonte de expectativas a ser perseguido. O presente se tornou algo inviável, levando com que os personagens tenham de voltar no tempo, às décadas anteriores, para tentar corrigir o que não se consegue mais resolver. Os problemas adquiriram uma magnitude tão fora de controle que apenas o velho sonho de uma viagem temporal pode solucioná-los, seja de maneira intencional ou não.
A desistência aparece logo na estrutura de “O Exterminador do Futuro”. Na história, o líder da resistência dos humanos, John Connor, está no futuro, que mal aparece na tela, mas que orienta tudo. É um lugar onde já não há saída devido à guerra entre pessoas e máquinas. A imagem do futuro está no planeta destruído. É de lá que partem duas figuras: um soldado enviado aos anos 1980 para proteger a mãe de John e um ciborgue praticamente indestrutível, enviado para matá-la.
Tudo se passa em Los Angeles, num ambiente de perseguição e fuga. O centro narrativo, porém, está no fato de que o tempo precisa ser dobrado para trás, porque o futuro não oferece nenhuma possibilidade de transformação. Não há como corrigir o que vem pela frente a partir dele próprio. É preciso interferir na origem. A série de “O Exterminador do Futuro” inteira repete esse gesto, sempre retornando, para impedir um desfecho que já parece dado. O tempo não avança; apenas gira em torno do que já ocorreu.
Filme nostalgia
“De Volta Para o Futuro” reorganiza esse movimento com outra tonalidade, mas não altera o princípio. Os personagens Marty McFly e o Dr. Brown saem de 1985 e chegam a 1955 dentro de um carro DeLorean. O primeiro tem uma vida familiar marcada pelo fracasso, e o filme oferece como solução a possibilidade de reorganizar o passado. A pequena cidade americana dos anos 1950 se transforma em um laboratório de destino, onde Marty tenta interferir na história dos pais para mudar o presente.
Cada gesto em 1955 produz uma nova cadeia de consequências que, por sua vez, exigem novas viagens e ajustes. A série de três filmes funciona nesse vai e vem. A idealização dos anos 1950, nesse caso, coincide com aquilo que Fredric Jameson chamou de “Cinema Nostalgia”. Não é apenas uma estética do passado, mas o uso de uma época anterior como substituto do futuro. O passado se torna o lugar onde ainda existe alguma ordem, e o tempo parece responder. O presente é a desorganização.

O filme “Peggy Sue — Seu Passado a Espera” traz uma viagem mais íntima no tempo. A lógica permanece a mesma. A personagem do título sofre uma crise, desmaia, entra em coma e retorna ao fim dos anos 1950 e início dos 1960, levando a consciência do futuro. Ela reencontra o namorado que vai se tornar seu marido (o sujeito que se divorcia dela) e passa a testar pequenas alterações. Imagina-se, então, como isso poderia mudar o que viria depois. É uma tentativa de ajustar o destino ruim, antes que ele aconteça.
Mas, conforme corre aquele tempo, Peggy Sue percebe o limite da intervenção. No final, decide não mudar nada. Aceita que as coisas tenham acontecido como foram. Mesmo quando o passado se abre como possibilidade, o futuro não necessariamente se reorganiza. Também se nota no filme de Coppola o “Cinema Nostalgia” de Jameson. O diretor explorou como ninguém a revisitação do passado, como nos filmes “Vidas Sem Rumo” e “O Selvagem da Motocicleta” nos anos 1980.
O que une esses três filmes é a mesma sensação de impossibilidade. O presente não se sustenta, o futuro não se projeta, e o passado se torna o lugar onde ainda existe alguma ação. O movimento de voltar no tempo não aparece como fantasia de avanço, mas como sintoma da impotência diante de um futuro que não responde. É exatamente o que se discute hoje: o cancelamento do futuro, a dificuldade de imaginar o amanhã. São obras que pressentiram muito cedo aquilo que hoje se tornou uma questão explícita.


