Eu escrevo porque escrever não me leva a nada

Eu escrevo porque escrever não me leva a nada

Eu escrevo. Por que não? Desde pequeno sou contraditório. Sou incapaz de afirmar com que idade precisamente comecei a escrever os meus textos. Muito menos por que precisão. Precisava mesmo daquilo? Careço? Nem tudo se explica. O rosto de uma mulher bonita. A neve no topo montanha. O mar. Contudo, mesmo sabendo quase nada, lembro-me perfeitamente bem do cheiro da cera com a qual a minha mãe lustrava o piso vermelho da casa 2 fundos: Colmeína. Era essa a marca do produto. Não me esqueceria de um nome tão estrambótico. Menino miúdo, deitava-me de bruços sobre o soalho frio e rabiscava as primeiras histórias num caderno barato comprado na promoção. Ambicioso desde sempre, imitava Monteiro Lobato, encantado pela magia da sua obra literária infantil. Não tenho certeza se a iniciativa de escrever de forma autoral foi incentivada por algum dos adultos da família. Creio que sim. Gerusaleta, a tia velha, a tia mais amada de todas as tias, que a gente chamava carinhosamente de Tia Chata por causa da baixa estatura, que tinha lecionado durante décadas em escolas públicas, vivia recomendando que eu lesse livros, que os devorasse de maneira sistemática porque a leitura fazia as pessoas se comunicarem melhor. Foi um ensinamento e tanto. É importante não somente ter o que dizer, mas saber como dizê-lo. Naquela época, em meados dos anos 1970, a ditadura militar imperava no país e eu ainda não fazia a mínima ideia do que significasse uma vida adulta desvirtuada por sonhos adulterados. Só pensava em brincar, em ir à escola, em escrever historinhas pueris inspirado no acervo precioso de um Monteiro Lobato, com a barriga colada no chão frio que recendia a cera de embalagem econômica. A minha perspectiva de vida, portanto, era tão superficial, rasa e rasteira quanto as pegadas no piso vermelhão da casa de família de classe média em que fui criado. Anos mais tarde, a misteriosa compulsão pela escrita teve sequência e consequências nos bancos escolares, com a parceria de um ou outro colega de comportamento igualmente bizarro. Por que escrevo eu nunca soube. A falta de uma resposta lúcida e convincente acabou criando o hábito. Um escritor não se cansa de tergiversar, de florear ideias, de pavimentar caminhos com a argamassa da fantasia e de outras metáforas afins. A constatação óbvia tantas vezes repetida é que não se muda o passado. Tenta-se compreendê-lo, tendo em vista que não é plausível passá-lo a limpo, como se fora uma história inventada, sem motivos compreensíveis, num caderninho barato que os pais compraram com muito esforço orçamentário numa promoção imperdível da papelaria. Compre um e leve dois. Eis a vida, seduzindo-nos com facilidades que absolutamente não a fazem menos complexa do que é. Eu escrevo porque escrever não me leva a nada. Parece um bom motivo, como o rio de lava incandescente que brota de dentro da gente e que escoa montanha abaixo queimando tudo o que encontra pela frente, inclusive as ilusões perdidas.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.