Ícone da prosa radical dos anos 1990, Marcelo Mirisola leva ao novo romance sua guerra contra o bom-mocismo literário

Ícone da prosa radical dos anos 1990, Marcelo Mirisola leva ao novo romance sua guerra contra o bom-mocismo literário

No lançamento de “Espeto Corrido”, em 2024, a calçada tomada em frente à livraria-bar Ria, em São Paulo, parecia prolongar no espaço físico as quitinetes, bares e calçadas que atravessam a prosa de Marcelo Mirisola. Entre leitores antigos, curiosos e escritores mais jovens, ele apresentou o romance e o selo Velhos Bárbaros, criado para publicar a própria obra sem depender de grandes grupos editoriais. O clima era de reencontro com uma figura que há quase três décadas provoca atrito no campo literário brasileiro.

Paulistano de 1966 e formado em Direito, Mirisola trocou a carreira jurídica por empregos variados e uma rotina de escrita que mistura observação de rua, fragmentos biográficos e fabulação. A opção pelo ponto de vista em primeira pessoa, quase sempre masculino e pouco conciliador, tornou-se marca registrada, assim como o vocabulário sexual explícito, o humor cruel e o interesse em expor contradições da classe média urbana.

A estreia em livro aconteceu com “Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia”, coletânea de contos publicada pela Estação Liberdade em 1998. Dois anos depois veio “O Herói Devolvido”, também de contos, pela Editora 34. No início dos anos 2000, o romance “O Azul do Filho Morto”, novamente pela Editora 34, deu sequência à construção de um narrador masculino ressentido, sexualizado e hostil à classe média que, ao mesmo tempo, o forma e o repele. Em 2003, “Bangalô”, ainda pela Editora 34, reforçou a imagem de uma voz disposta a levar adiante a linhagem de narradores urbanos desajustados.

A partir daí, a lista se expandiu com romances e livros de contos como “Joana a Contragosto” e “O Homem da Quitinete de Marfim”, pela Record, “Memórias da Sauna Finlandesa”, pela Editora 34, e “Charque”, pela Barcarolla. Em todos, o mesmo movimento: transformar fracassos afetivos, empregos precários, ressentimentos e brigas em matéria de ficção, sem separar rigidamente o que é diário íntimo, fantasia ou invenção de personagens. As fronteiras entre autor e narrador permanecem porosas e fazem parte do efeito de leitura.

Mirisola
Marcelo Mirisola

Essa escolha estética veio acompanhada de confrontos constantes com o meio. Mirisola acumulou desentendimentos com editoras, colegas de geração e instituições culturais, atacando o que enxerga como bom-mocismo, patrulhamento ideológico e uso da literatura como extensão de políticas de inclusão. O resultado é uma posição ambivalente: de um lado, leitores fiéis e presença regular em debates universitários; de outro, dificuldades para permanecer em catálogos mais conservadores e em prateleiras de exposição permanente.

“Espeto Corrido”, romance que inaugura a Velhos Bárbaros em 2024, sintetiza esse ponto da trajetória. O livro mantém o narrador misantropo e sexualizado, mas o coloca diante de aplicativos, redes sociais e um mercado cultural regulado por algoritmos e editais. A decisão de criar um selo próprio nasce, em parte, da venda do acervo pessoal do autor para uma universidade norte-americana e reforça a imagem de escritor que prefere negociar diretamente com livrarias e leitores, sem intermediações excessivas.

Com “Beleléu”, previsto para 2026, Mirisola leva esse movimento um passo adiante. O novo romance aparece como continuidade da prosa autoficcional que o acompanha desde o fim dos anos 1990, agora atravessada por um ambiente ainda mais digitalizado, no qual a figura do escritor, o livro impresso e a própria ideia de escândalo literário parecem em disputa. O título remete à expressão popular “ir para o beleléu” e sugere personagens à beira do apagamento, mas dispostos a reagir com linguagem agressiva e recusa a qualquer acomodação.

Trechos já apresentados em leituras privadas indicam que o registro em primeira pessoa permanece, assim como o vocabulário sexual direto, o ressentimento de classe e o interesse em satirizar tanto elites quanto nichos culturais que reivindicam superioridade moral. O foco, porém, desloca-se cada vez mais para a sensação de que a experiência literária compete, em desvantagem, com fluxos contínuos de imagens, notificações e performances em rede.


Trechos de Beleléu, novo romance de Marcelo Mirisola que chega às livrarias em 2026

Carlos Willian Leite

Jornalista especializado em jornalismo cultural e enojornalismo, com foco na análise técnica de vinhos e na cobertura do mercado editorial e audiovisual, especialmente plataformas de streaming. É sócio da Eureka Comunicação, agência de gestão de crises e planejamento estratégico em redes sociais, e fundador da Bula Livros, dedicada à publicação de obras literárias contemporâneas e clássicas.