No lançamento de “Espeto Corrido”, em 2024, a calçada tomada em frente à livraria-bar Ria, em São Paulo, parecia prolongar no espaço físico as quitinetes, bares e calçadas que atravessam a prosa de Marcelo Mirisola. Entre leitores antigos, curiosos e escritores mais jovens, ele apresentou o romance e o selo Velhos Bárbaros, criado para publicar a própria obra sem depender de grandes grupos editoriais. O clima era de reencontro com uma figura que há quase três décadas provoca atrito no campo literário brasileiro.
Paulistano de 1966 e formado em Direito, Mirisola trocou a carreira jurídica por empregos variados e uma rotina de escrita que mistura observação de rua, fragmentos biográficos e fabulação. A opção pelo ponto de vista em primeira pessoa, quase sempre masculino e pouco conciliador, tornou-se marca registrada, assim como o vocabulário sexual explícito, o humor cruel e o interesse em expor contradições da classe média urbana.
A estreia em livro aconteceu com “Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia”, coletânea de contos publicada pela Estação Liberdade em 1998. Dois anos depois veio “O Herói Devolvido”, também de contos, pela Editora 34. No início dos anos 2000, o romance “O Azul do Filho Morto”, novamente pela Editora 34, deu sequência à construção de um narrador masculino ressentido, sexualizado e hostil à classe média que, ao mesmo tempo, o forma e o repele. Em 2003, “Bangalô”, ainda pela Editora 34, reforçou a imagem de uma voz disposta a levar adiante a linhagem de narradores urbanos desajustados.
A partir daí, a lista se expandiu com romances e livros de contos como “Joana a Contragosto” e “O Homem da Quitinete de Marfim”, pela Record, “Memórias da Sauna Finlandesa”, pela Editora 34, e “Charque”, pela Barcarolla. Em todos, o mesmo movimento: transformar fracassos afetivos, empregos precários, ressentimentos e brigas em matéria de ficção, sem separar rigidamente o que é diário íntimo, fantasia ou invenção de personagens. As fronteiras entre autor e narrador permanecem porosas e fazem parte do efeito de leitura.

Essa escolha estética veio acompanhada de confrontos constantes com o meio. Mirisola acumulou desentendimentos com editoras, colegas de geração e instituições culturais, atacando o que enxerga como bom-mocismo, patrulhamento ideológico e uso da literatura como extensão de políticas de inclusão. O resultado é uma posição ambivalente: de um lado, leitores fiéis e presença regular em debates universitários; de outro, dificuldades para permanecer em catálogos mais conservadores e em prateleiras de exposição permanente.
“Espeto Corrido”, romance que inaugura a Velhos Bárbaros em 2024, sintetiza esse ponto da trajetória. O livro mantém o narrador misantropo e sexualizado, mas o coloca diante de aplicativos, redes sociais e um mercado cultural regulado por algoritmos e editais. A decisão de criar um selo próprio nasce, em parte, da venda do acervo pessoal do autor para uma universidade norte-americana e reforça a imagem de escritor que prefere negociar diretamente com livrarias e leitores, sem intermediações excessivas.
Com “Beleléu”, previsto para 2026, Mirisola leva esse movimento um passo adiante. O novo romance aparece como continuidade da prosa autoficcional que o acompanha desde o fim dos anos 1990, agora atravessada por um ambiente ainda mais digitalizado, no qual a figura do escritor, o livro impresso e a própria ideia de escândalo literário parecem em disputa. O título remete à expressão popular “ir para o beleléu” e sugere personagens à beira do apagamento, mas dispostos a reagir com linguagem agressiva e recusa a qualquer acomodação.
Trechos já apresentados em leituras privadas indicam que o registro em primeira pessoa permanece, assim como o vocabulário sexual direto, o ressentimento de classe e o interesse em satirizar tanto elites quanto nichos culturais que reivindicam superioridade moral. O foco, porém, desloca-se cada vez mais para a sensação de que a experiência literária compete, em desvantagem, com fluxos contínuos de imagens, notificações e performances em rede.
Trechos de Beleléu, novo romance de Marcelo Mirisola que chega às livrarias em 2026
Teve o lançamento na quitinete (juro, tá documentado, a TV Cultura cobriu) quando revezaram mais de duzentos em 40 m2. As pessoas compravam os livros com o Bac na calçada do prédio e, depois, subiam para pegar as dedicatórias. Eu circulava entre a rua e a quitinete, enchendo a cara, tirando onda e me atracando com marias-rodapé, atrizes e almas penadas do Satyros, roedoras, tigresas e umbralinos afins. Subia e descia, fornicava e bebia, lançamento montanha-russa. Até que apaguei num looping de vodca, uísque & falta de vergonha na cara, e só fui acordar às três da madrugada quando flagrei Reinaldão Moraes xavecando Jeni (minha namoradinha no dia do lançamento), a qual, coincidentemente, havia perdido o cabaço comigo na noite anterior.
Eê sacanagem, mundo véio da porra: minha vida (ou meu colchão, dá no mesmo) era um blended de cabaços póstumos e badalhocas ressecadas dos travestis da Roosevelt; e eu lá, me deleitando na putaria, feito um Rei de baralho falsificado. Bem, naquela época eu contava trinta e poucos anos, e a tadala era produzida a partir do meu ego que se autoinflava e era alimentado diuturnamente pelo ego dos outros que me entregavam suas alminhas & respectivas pregas, além, é claro, da constatação mais do que óbvia de que meu ego e minha pica funcionavam como extensões naturais um do outro, ou seja, eu vivia na festa da autoestima — pau e ego duros e inflados full-time.
(…) a propósito, a falácia da autoestima não é artigo para ser distribuído a qualquer pangaré. Nem autoestima, e muito menos a transcendência, as artes e os cheesecakes que são comercializados nos xing-lings da vida a R$ 1,99. O resultado é a epidemia de chefes-de-cozinha e artistas meia-boca que somos obrigados a engolir, de modo que aparentemente a cabecinha oca do pangaré está bem, devidamente resolvida, afagada e festejada pela plateia, pelos pares e pela bosta da autoestima, mas os cheesecakes deles não se distinguem de frieiras apodrecidas; vale o mesmo para a música, a literatura e as “artes” que produzem, só fraude e carniça. Daí fica fácil chamar urubu de meu lôro, Mc baguncinha de Tom Jobim, Krenak de Bergson e por aí vai.
Voltando ao lançamento. Baita honra dividir a ninfeta com Moraes (…)
(…) À época eu atendia pelo codinome “bola da vez”. Isso foi antes de zoar com os ungidos, sagrados e intocáveis manos do hip hop; antes de ser amaldiçoado pela esquerda identitária e narcisista (que já começava a pôr as garrinhas de fora); e antes de ser definitivamente riscado do mapa e de ter sido boicotado pelos chernoboys* que, nos anos seguintes, além de tomar de assalto editoras, editais, redações etc, também se apropriaram da melanina alheia** sem que houvesse qualquer reação. Bem, ocorre que, antes de os chernoboys assumirem o controle da senzala e da máquina de fazer idiotas, eu pressentia um cheiro podre de censura e autocensura no ar. O fato é que, já naquela época, idos de 2002/2003, cansei de dizer que nunca ninguém, desde Homero a Nelson Rodrigues, que ninguém havia cogitado — e não cogitou porque trata-se de uma forçação de barra e de uma demagogia escrota e odiosa —, ninguém jamais cogitou que literatura e assistência social serviriam ao mesmo propósito.
Porém, no final dos anos zero-zero, a coisa mudou. O Brasil mudou. Qualquer expressão artística tinha de cumprir sua função social: virou lei, edital, política pública, verba, muita verba. Em vez de se ocupar com metafísica, parábolas, construções e desconstruções psicológicas, personagens, enredos, teses, antíteses e, principalmente, implodir e subverter tudo isso — e ainda não dar vexame na conjugação de verbos e caprichar nas regências —, agora o escritor teria uma nova função; qual seja, fazer a triagem e o encaminhamento de estropiados e ceder a vez a vulneráveis, analfabetos funcionais e fodidos de toda espécie. E que enfiasse a sintaxe, a dicção e o rabo entre as pernas; que reparasse o crime histórico de usar o talento em benefício próprio sob pena de ter seus livros, sua reputação e sua alminha jogados na fogueira dos hereges (leia-se homens brancos, heterossexuais, classe média).
O problema, nem seria preciso dizer, é que nunca tive vocação para assistência social. Nem eu, nem Goethe, nem Dante, nem Mario Quintana que era quase um querubim, e nem tampouco os próprios querubins cuja tarefa — até hoje — consiste em guardar os Portões do Éden — diligência, aliás, que não tem absolutamente nada a ver com assistencialismo e caridade.
(…) e mais, se existisse uma função social para a literatura, essa função seria dar um grande foda-se para todos e “todes”. É o que faço desde meu primeiro livro, e foi o que pratiquei na oportunidade: dei um retumbante foda-se para o Jardim Ângela e demais periferias; fodam-se a Berrini e a Faria Lima também; a mesma coisa vale para as planícies, planaltos e altiplanos; fodam-se os manos e suas rimas toscas, a cadeia que puxaram e as respectivas biqueiras e quebradas; e fodam-se os mauricinhos e patricinhas; que se dane o espectro político de uns e de outros; fodam-se a Unicamp, a PUC e as peruas da Globo News juntas; fodam-se indistintamente as graças e as desgraças de todos eles.
Só que eu é quem acabei me fodendo.
(…) A propósito, na ocasião e desde sempre, cansei de proclamar em altos e retumbantes brados que literatura sempre foi caminho de abominação, subversão e desvario. Nunca serviu como cura ou resgate de porra nenhuma. Avisei que não ia ornar trocar talento por discursinho de inclusão, e que as bandeiras políticas iam acabar sendo enfiadas em nossos próprios rabos; eu cansei, mas cansei de avisar, disse que ia dar merda e foi exatamente o que aconteceu.
(…) Quero dizer que os anos zero-zero significaram a última golfada de ar puro e liberdade no Brasil, e no mundo, pois na virada do milênio, e até poucos anos depois, a lógica de Steve Jobs e dos nerds de Los Altos, e os manuais de boas maneiras, as patrulhas, o ódio, a revanche, e a falta de talento dos millenials***, ainda não haviam emergido das piscinas de bolinhas e dos cercadinhos kids dos shoppings e praças de alimentação — à época frequentados pelos mesmos, ainda bebês. E são esse merdas que, hoje, estão dando as cartas e censurando geral, e que aniquilaram ou zeraram incondicionalmente as artes e a literatura — essa é a parte mais abjeta: — por causa de genética, opção sexual, CEP, melanina, supostas culpinhas estruturais e quesitos afins, sem os quais é impossível ser deferido como “artista” nas piscinas de bolinhas coloridas e cercadinhos-nazi das praças de alimentação da cultura brasileira, enfim e resumidamente: todos os que não se incluíam nos protocolos nazifascistas supracitados foram subtraídos, dançaram.
E agora, meus caros amigos tóxicos, agora é tarde demais, e a única coisa que me resta a dizer é: bem-feito, eu avisei.
*Chernoboys ou grupo chernobil-vanessa bárbara, vale a pena dar um google.
**De repente um chernoboy se deu conta de que era negro, um negro albino, eureca! Os demais evidentemente vestiram a camisa, ou melhor, também trocaram de cor. E, assim, do dia para a noite, uma elitizinha intelectual, usufrutuária de capitanias hereditárias da grande imprensa e a serviço de banqueiros líricos, realizaram o grande fetiche de uma geração: seja marginal/seja herói. Cinema, favela, literatura, crime organizado, Rousseau & juros estratosféricos, tudo bem batidinho no liquidificador da demagogia e do racismo estrutural, e voilà! Tamos juntos e misturados, mano! A Oscar Freire virou Jardim Ângela, e o Jardim Ângela virou Oscar Freire, a mesma coisa aconteceu com os “inocentes do Leblon e os fodidos da Maré”. A partir daí bastava se adequar ao discurso oficial de que a literatura e demais artes, irmanadas com o assistencialismo social e com as políticas de inclusão (no caso os chernoboys é que deram um jeito de mudar de cor, logo se incluíram), iam corrigir as injustiças e as opressões das quais as minorias foram vitimadas por séculos — pois agora os mauricinhos da Vila Madalena e da Oscar Freire também eram negros e explorados. O mais bizarro é que colou. E mais bizarro ainda é que os verdadeiros pobres, fodidos e explorados, em vez de esquartejarem os “albinos-fashion” em praça pública, os festejaram e pagaram a conta (como sempre). Isso tudo podia ser um breve resumo da história das elites do Brasil que agora atende por Roma Negra, aquela mesma profetizada por Darcy Ribeiro e cantada em verso e prosa por Vinicius de Moraes, só que fake. Muito esgoto e dinheiro público rolou por debaixo da ponte estaiada: uma grande suruba que contou com a fervorosa participação de uma academia que é ideológica e es-tru-tu-ral-men-te tacanha, mal-intencionada, parcial e sanguessuga e que, naturalmente, festejou e tirou casquinhas amarelas e marrons da ferida exposta. A ideia foi vendida como alta literatura para os trouxas e culpados de praxe, leia-se classe média rendida, anestesiada e adestrada para consumir Flips e merdas do tipo E, assim, os negros albinos, os sete anões também, e mais uma penca de minorias, foram redimidos pelos mauricinhos da Oscar Freire — que lucraram/continuam lucrando com o referido xaveco. O nome disso é oportunismo, filhadaputagem, Brasil, nazismo degradê, Brasil, escrotice ou qualquer expressão que se relacione a Brasil, lixo ou esgoto, qualquer coisa menos literatura.
***Ocorre que “lugar de fala” de homem escroto nunca foi no asilo ou no cemitério, mas nas boas editoras do ramo. Foi assim desde que Gutenberg liberou a estrebaria até há pouquíssimo tempo, antes da nazi-babaquice millenials ser instalada no mundo. A dura realidade é uma só: ou você (incluindo os editores) se adapta aos cercadinhos-nazi dos millenials, ou é fim de linha.
(…) o que eu quero dizer é que a porralouquice (ou “o diálogo”) era com o passado. A força vinha dos mortos, nada demais, é/ou era a lei do trampolim: há milênios que os vivos se projetavam/projetam e se lançavam/lançam a partir da inspiração dos mortos — e vice-versa. Jorge Luis Borges, aliás, tem um ensaio maravilhoso que reproduz essa tese, onde especula que o futuro influencia o passado. Artaud fala da mesma coisa em “O suicida da sociedade”. O tema é recorrente. O problema, repito, é que o processo que alimentava e retroalimentava aquilo que chamávamos de cultura, organização social, história e evolução da espécie começou a ser demolido em Los Altos, na Califórnia, na virada dos 1970-1980 quando Steve Jobs e quatro ou cinco nerds diabólicos mudaram a lógica da coisa, ou melhor, reduziram a pó, a lógica e a coisa, não sobrou nada.
Não passou uma década e meia depois da virada do milênio para que o novo processo e a nova lógica se consumassem — se impusessem implacavelmente – na vida de todos os habitantes do planeta Terra; um algoritmo bem calibrado vale, vende e influencia muito mais do que todas as pseudoideias geniais dos publicitários mais sacanas que passaram sobre a face da terra, desde Goebbels até Washington Olivetto. O cadastro da íris de dona Izildinha tem mais relevância que a obra de Evanildo Bechara (talvez tenha mesmo…), pois as línguas deixaram de ser pátrias para virar emojis e, por aí vai até o ponto em que você precisa provar ao avatar de Mr. Gates que não é um robô, caso contrário, correrá um sério risco de perder o acesso a própria conta bancária. Ato contínuo, a atendente do call center será mais definitiva na história da sua vida do que todas as escolhas que você fez até chegar a ela, depois de ter falhado miseravelmente na tentativa de provar que é um ser humano. Aí a ligação cai, e você tem que começar tudo outra vez, cadastro, senha, recaptcha e a putaquepariu.
Bem, para resumir, no intervalo de um lanche eliminamos cinco mil anos de civilização. Entre 2005 e 2015, período que marcou a infância e a adolescência dos millenials, Paulinho Picanha sucumbiu, Daniel teve o AVC, Phil Collins e Chitãozinho & Xororó foram alçados à condição de clássicos; e muito mais: vale lembrar que, em nome do controle total e absoluto, não foi apenas o conhecimento adquirido ao longo dos séculos que dançou, também jogamos a pouca liberdade que tínhamos na lata do lixo. Viramos reféns, ninguém existe fora do sistema criado por Steve Jobs, Bill Gates e outra meia dúzia de nerds vindos dos Tártaros da Califórnia. Califórnia Nightmares. Acabaram com o futuro. No future. O passado foi reescrito e é interpretado pelos algoritmos de acordo com o humor e a ideologia desses filhosdaputa, e os mortos, nossos queridos mortos, foram assassinados, mortos e enterrados para sempre.
Nabokov, hoje, não teria sequer o benefício da dúvida.
Para os millenials, foi moleza, não tiveram que aprender nada com as gerações anteriores: muito menos com os filhotes de Chaves que os antecederam (Bukowski foi o Chaves da minha geração). Daí que fizeram os respectivos cadastrinhos (não duvido que alguns jamais tenham tocado num livro impresso) e ignoraram tudo o que veio antes deles; zeraram a conta, e, “diboas”, assimilaram os pokémons do McDonald’s e o mundinho fascista que ganharam de presente de Steve Jobs e cia ltda. Daí que não é exagero dizer que ocorreu uma mutação ou adaptação tecnológica diabólica nessa geraçãozinha de merda — os millenials nada mais são do que a versão não assumida, colorida e atualizada dos camisas pretas de Mussolini, desprovidos de qualquer traço de viço e/ou tesão.
Ah, eu falava da Polaquinha que conheci no calçadão da XV uma semana depois da morte de Dalton Trevisan…
