Na Netflix, o filme de ação mais assistido da atualidade no Brasil Divulgação / Quiver Distribution

Na Netflix, o filme de ação mais assistido da atualidade no Brasil

As comédias de ação mantêm espaço cativo junto ao público. Brigas homéricas, perseguições caóticas e tiroteios impecavelmente coreografados proporcionariam ainda mais gozo se acompanhados de sequências leves, introdução para piadas tolas, mas que corresponderiam àquela lógica bizarra. Personagens que assumem sua vocação heroica, ainda que não tardem a amargar circunstâncias desfavoráveis, caem no gosto, inspirando sentimentos controversos, oblíquos, de que bons intérpretes sabem tirar proveito. Isso é o que acontece em “Onda de Violência”, título enganoso para um pastelão cruento, desenvolvido a partir de uma boa premissa. Michael Hamilton Wright sabe como reinventar uma velha fórmula, misturando velocidade, humor e um antirromance pleno de energia, compondo um mosaico estimulante no gênero.

Pete é um requisitado matador de aluguel que tenta colocar alguma ordem em sua vida louca. Ele passa a frequentar as reuniões de um grupo com outros viciados em trabalho, sem, claro, dizer nada que o comprometa, situação por si só pródiga em lances divertidos, que sobem e descem à medida que o filme torna-se mais ou menos relevante. Wright e os corroteiristas Christina Laughlin e Burton L. Warner fazem uma aposta arriscada, mas certeira, na onipresença do protagonista, que vai assumindo sua função de condutor da narrativa, sem esquecer a audiência. Michael Jai White faz de Pete um mártir, frisando a desfaçatez de seu anti-herói, convencido de que é dotado de um papel expurgatória na sociedade imunda que o rodeia. Sua autoconfiança, no entanto, experimenta um revés na hora em que o gângster para quem costuma prestar seus serviços fica incomodado com as sessões de terapia a que Pete comparece com mais e mais prazer, desconforto que esconde uma intenção especialmente nebulosa.

O propósito de elaborar uma sátira com um rol de elementos do blaxploitation, a vertente do cinema que falava à negritude valendo-se de personagens negros na década de 1970, perde força no segundo ato, ocasião em que o diretor mira o relacionamento de Pete e Mora, a loira platinada que, por acaso, é filha de seu chefe e novo algoz. Essa urgência de abordar tópicos diversos em hora e meia faz com que “Onda de Violência” derive para um jogo de gata e rato que Wright não sabe como resolver, por mais que Aimee Stolte surpreenda. A afinidade dos dois termina amenizando a previsibilidade na iminência do desfecho, quando a pancadaria gratuita sufoca de uma vez por todas os dilemas morais de Pete, um carismático bandido-herói.

Filme: Onda de Violência
Diretor: Michael Hamilton Wright
Ano: 2025
Gênero: Ação/Comédia/Crime
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.