“Ela e os Caras“ pode até flertar com o território previsível das histórias universitárias açucaradas, mas existe algo nessa trama que revela, sem alarde, como o rito de passagem feminino continua sendo medido por expectativas herdadas de gerações que não souberam deixar suas coroas em repouso. A narrativa se abre com Sydney, interpretada por Amanda Bynes, acreditando que sua entrada na universidade seria o momento de conciliar memória familiar e autonomia. O plano dura pouco: o encontro com a Kappa, sororidade liderada pela implacavelmente vaidosa Rachel Witchburn, vivida por Sara Paxton, transforma a promessa de pertencimento em desconforto calculado. A jovem, pressionada a repetir a trajetória de sua mãe, percebe que aquela comunidade de aparências opera mais como tribunal do que como abrigo.
O rito de expulsão que sofre, sob chuva, claro, porque certas humilhações só funcionam com efeito climático, empurra Sydney para o Vortex, república ocupada por sete estudantes que carregam cada um sua excentricidade como quem tenta sobreviver a um campus dominado por hierarquias silenciosas. Ali, ela reencontra Tyler, interpretado por Matt Long, com quem estabelece uma conexão afetiva que não depende de fachadas. Mas o ponto mais interessante é como esse grupo de outsiders funciona como catalisador de uma rebeldia que a protagonista não sabia que estava disposta a encarnar. O deslocamento inicial deixa de ser ferida e vira combustível.
Ao lado dos novos amigos, nerds assumidos e dotados de um senso de humor involuntário, Sydney decide enfrentar Rachel através da eleição estudantil, apostando que um campus anestesiado por tradições superficiais talvez estivesse pronto para rir de si mesmo. O roteiro usa essa disputa para expor uma dinâmica que, embora leve, sugere como instituições juvenis reproduzem microestruturas de poder. Ainda que tudo seja embalado com suavidade humorística, é impossível ignorar a maneira como cada personagem tenta se adaptar a padrões inventados por outros. A jornada política da protagonista surge quase como uma consequência inevitável desse desconforto coletivo.
Amanda Bynes conduz Sydney com uma espontaneidade que dialoga bem com o tom do filme, encontrando equilíbrio entre vulnerabilidade e teimosia. Já Sara Paxton compõe uma antagonista que prefere o deboche à crueldade explícita, o que torna Rachel menos caricata do que poderia ser. O elenco que ocupa o Vortex funciona como suporte afetivo e cômico, trazendo frescor às cenas que poderiam deslizar para o sentimentalismo fácil. A relação entre eles cria uma impressão de comunidade improvisada que, ainda que simplificada, carrega uma verdade emocional: às vezes o acolhimento nasce onde não era esperado.
O longa utiliza referências ao conto clássico não como cópia literal, mas como espécie de jogo interno, convidando o espectador a reconhecer paralelos sem ser guiado por eles. O humor é limpo, os exageros são assumidos e, por mais que a estrutura siga um caminho familiar, existe franqueza suficiente para que o conjunto funcione. A leveza, longe de ser defeito, oferece uma alternativa ao cinismo que domina tantas narrativas adolescentes contemporâneas. Não se trata de recalibrar o mito da princesa moderna, mas de usá-lo para sugerir que a autenticidade, quando compartilhada, cria resistência.
O desfecho evita grandes epifanias e prefere uma vitória construída na sensação de pertencimento coletivo. Sydney amadurece não porque vence uma eleição, mas porque deixa de pedir autorização para ocupar espaço. É nesse gesto simples, quase silencioso, que o filme encontra seu ponto mais persuasivo: a coragem de transformar constrangimentos em possibilidade. E se tudo termina com um calor que flerta com o escapismo, talvez seja justamente porque, entre tantas pressões universitárias fictícias ou reais, imaginar um mundo em que a espontaneidade ganha terreno ainda funciona como pequeno ato de indulgência.
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