Terror que acaba de chegar ao Prime Video faz do luto o gatilho para algo muito mais perturbador Divulgação / Moonlight Film

Terror que acaba de chegar ao Prime Video faz do luto o gatilho para algo muito mais perturbador

“O Armário” se constrói a partir de uma situação familiar que, à primeira vista, poderia sugerir apenas uma reacomodação emocional após um período de perda, mas rapidamente se revela como um campo de tensão entre o luto, a racionalidade possível diante do inexplicável e a incapacidade humana de aceitar que certos espaços guardam mais do que lembranças. A mudança de Sang-won, interpretado por Ha Jung-woo, e de sua filha Yi-na, vivida por Heo Yool, para uma casa afastada não funciona como a tentativa esperada de reorganizar a vida após a morte da mãe; torna-se, ao contrário, o início de uma convivência diária com sinais que ultrapassam o alcance de qualquer explicação convencional. A relação já desgastada entre pai e filha encontra no novo quarto da menina um ponto de ruptura, principalmente quando o armário começa a se colocar como uma presença silenciosa, mas insistente, interferindo tanto na rotina quanto na saúde emocional da criança.

A progressiva mudança de comportamento de Yi-na é decisiva para compreender o que o filme articula como núcleo dramático. A menina, antes retraída e ressentida, passa a reagir com hostilidade e episódios de desequilíbrio que não se explicam apenas pelo trauma recente; o espectador acompanha Sang-won em sua tentativa de interpretar esses sinais sem recorrer imediatamente ao sobrenatural, o que dá ao filme uma tensão constante entre incredulidade racional e urgência paterna. Quando sons inexplicáveis, risadas sufocadas e movimentos impossíveis passam a ocupar a casa, a narrativa se abre para a entrada de Kyung-hoon, interpretado por Kim Nam-gil, cuja investigação oferece uma rota mais objetiva para compreender aquilo que se esconde atrás das portas do tal armário.

A partir desse ponto, “O Armário” abandona qualquer ambiguidade e expõe um passado de violência que envolveu outra criança e que permanece ativo e corrosivo no presente. A trama sobre os desaparecimentos, antes apenas uma suspeita, transforma-se em uma rede de episódios que afetam diversas famílias, criando uma ligação direta entre a dor coletiva e a situação particular de Sang-won. O deslocamento para uma dimensão paralela não é apenas um recurso de expansão visual, mas a materialização da persistência do trauma associado a esses desaparecimentos. No entanto, alguns trechos reciclam soluções já vistas em produções japonesas e americanas, algo que enfraquece a singularidade do filme e afasta um pouco a força de seu melhor argumento: a relação entre culpa, abandono e a tentativa desesperada de reparação.

Mesmo com essas limitações, o longa ganha intensidade quando concentra sua atenção nos rostos das crianças perdidas e na expressão de Yi-na, cujas aparições oscilam entre fragilidade e um distanciamento perturbador. Nesse aspecto, a atuação de Heo Yool sustenta o impacto emocional das cenas, especialmente quando o filme opta por recusar o susto fácil e apostar na sensação de que algo essencial foi arrancado dessas vidas. Sang-won, por sua vez, se vê pressionado a ocupar um papel de pai que nunca sustentou plenamente, e essa falha anterior pesa sobre todas as suas decisões. Ainda que o filme abra espaço para sequências de ação que não acrescentam grande profundidade, ele mantém firme a ideia de que enfrentar o sobrenatural é, antes de tudo, encarar o que foi negligenciado.

O que fica, após o resgate de Yi-na, não é alívio, e sim a percepção incômoda de que o luto, quando tratado como algo que deve ser simplesmente deslocado de cenário, tende a se infiltrar em cada espaço que se tenta ocupar. Essa constatação final, ao invés de oferecer conforto, propõe algo mais inquietante: certos vínculos se mantêm não pela harmonia, mas pela necessidade urgente de reparar aquilo que foi ignorado por tempo demais.

Filme: O Armário
Diretor: Kwang-bin Kim
Ano: 2020
Gênero: Mistério/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.