A filosofia de Jean-Paul Sartre não foi feita para confortar. Seu existencialismo é uma provocação permanente: o homem não tem essência prévia, está condenado a ser livre e, portanto, responsável por tudo o que faz, ou deixa de fazer. Essa radicalidade transforma cada gesto em uma escolha carregada de peso, e o cinema tem sido um território fértil para dramatizar essa condição. Longe de tratar apenas de ideias abstratas, os filmes que dialogam com Sartre revelam personagens comuns enfrentando dilemas íntimos, sufocantes, que expõem a profundidade da liberdade humana.
Na Netflix, é possível encontrar obras que, mesmo sem citar diretamente o filósofo francês, dialogam com sua visão do mundo. São narrativas que exploram a angústia como sentimento fundante da existência, a má-fé como fuga das próprias responsabilidades e a busca por autenticidade diante de sociedades que insistem em ditar destinos prontos. Cada história é um ensaio visual sobre a dificuldade de existir em meio a escolhas que nunca podem ser transferidas a outro.
Entre dramas íntimos, distopias e retratos sociais, esses filmes revelam como a liberdade sartreana não é um convite ao otimismo, mas um fardo inevitável. Não se trata de esperar que a vida ofereça um roteiro, mas de reconhecer que cada ato, por menor que pareça, constrói quem somos. Em todos esses títulos, a câmera se transforma em um espelho da consciência: mostra sujeitos em conflito, tentando escapar de si mesmos, mas descobrindo que a única saída é assumir o peso da própria liberdade.

Durante férias solitárias à beira-mar, uma professora universitária observa a relação entre uma jovem mãe e sua filha, despertando lembranças amargas de seu passado. Entre encontros fortuitos e silêncios incômodos, ela revisita as escolhas que a afastaram da maternidade convencional, enfrentando a culpa e a tentativa de justificar sua busca por autonomia. Ao mesmo tempo em que deseja a liberdade que conquistou, também se confronta com o vazio deixado por sua ausência. Nesse embate interno, descobre que não há como desfazer o que foi vivido, apenas carregar a responsabilidade por cada decisão que a transformou no que é.

Após a perda traumática de um bebê durante o parto, uma jovem mãe e seu companheiro mergulham em um luto devastador que expõe rachaduras já existentes na relação. Enquanto ele busca anestesiar a dor em distrações e acusações, ela encara o silêncio, a solidão e a pressão social para se recompor. A tragédia se torna um espelho da liberdade radical: não há destino a seguir, apenas a necessidade de reinventar a própria existência em meio ao vazio. Cada escolha, perdoar, abandonar ou resistir, se torna um gesto de reconstrução diante do absurdo da vida.

Duas irmãs inseparáveis, unidas por sonhos de futuro e cumplicidade, são separadas por imposições familiares e sociais. Uma é forçada a viver uma vida de sacrifícios e silêncio; a outra, a perseguir ambições artísticas que parecem inalcançáveis. A distância entre elas não é apenas geográfica, mas marcada por cartas nunca entregues e pela ausência irreparável. A obra expõe o conflito sartreano entre a liberdade possível e os limites impostos pelo mundo: mesmo em condições adversas, cada personagem é chamada a decidir quem deseja ser, assumindo as consequências dessa escolha, ainda que custe a vida inteira.

Um homem aparentemente comum vive em uma cidade perfeita, cercado por vizinhos sorridentes e uma rotina impecável. Aos poucos, pequenas falhas no cenário despertam nele a suspeita de que tudo ao redor não passa de uma encenação. Essa revelação o lança em um conflito profundo: permanecer em um mundo confortável, mas falso, ou assumir os riscos da liberdade no desconhecido. Sua jornada é uma metáfora sobre a má-fé sartreana, a tentação de aceitar papéis prontos, e a coragem necessária para romper com a ilusão e encarar a autenticidade de uma vida sem garantias.