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Existe uma certa superstição em torno dos grandes amores da literatura. Como se estivessem protegidos por uma membrana sutil — feita de papel amarelado, traduções sucessivas e leitores silenciosos. Mas a verdade é que essas histórias, mesmo as mais celebradas, não sobreviveram apenas pela beleza. Elas sobreviveram pela dor. Pela inquietação que deixam quando terminam. Pela maneira como desarrumam o leitor por dentro, mesmo quando tudo no enredo parecia previsível — ou, quem sabe, inevitável.

Não é exagero dizer que esses sete romances que reunimos aqui já foram lidos por mais de um bilhão de pessoas. Há algo inquietante nisso. Um bilhão de olhos seguindo as mesmas linhas, um bilhão de corações comprimidos no mesmo parágrafo onde alguém ama demais ou cedo demais ou tarde demais. É como se houvesse uma linha subterrânea que ligasse um leitor russo de 1878 a uma adolescente colombiana de 2025. A força do amor — em sua forma literária — sempre teve algo de clandestino.

Mas não se trata apenas de amor. Trata-se daquilo que o amor revela. Anna arde por dentro enquanto o mundo desaba por fora. Jane não se curva nem à pobreza, nem à paixão. Bovary sufoca entre vestidos caros e quartos sem janelas. Heathcliff e Catherine transformam a charneca num espelho quebrado do desejo. Romeu e Julieta, jovens demais, acreditam demais — e por isso talvez amem com mais verdade do que todos nós. Gatsby constrói um império de vidro por uma mulher que talvez nunca tenha existido da forma como ele acreditava. E o protagonista de “A Sonata a Kreutzer”… bem, ele não ama. Ele se destrói naquilo que acha que é amor.

Essas histórias não sobreviveram porque são belas — mas porque são incômodas. Encantadoras, sim. Viscerais, mais ainda. E não importa quantas vezes sejam lidas, sempre haverá um trecho que sangra de novo.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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