Autor: Fernando Machado

A série de suspense policial sueca perfeita para maratonar durante o feriado, na Netflix Divulgação / Creative Society Production

A série de suspense policial sueca perfeita para maratonar durante o feriado, na Netflix

Granås, pequena vila imersa na paisagem glacial do norte europeu, é um espaço suspenso, onde os dias se repetem como rituais e o passado escorre pelas rachaduras das paredes. Quando Lejla retorna ao vilarejo que a viu desaparecer ainda criança, o faz não como quem volta para casa, mas como quem visita um lugar contaminado. Consagrada criminóloga nos Estados Unidos, ela carrega um currículo irrepreensível e um trauma indecifrável — ambos forjados sob pressão. A morte da mãe adotiva, Ann-Marie, serve como pretexto para a viagem, mas o luto pouco tem a ver com flores ou despedidas.

Atuações geniais de Meryl Streep e Tommy Lee Jones em filme sobre a corrosão do amor e o vazio emocional, na Netflix Barry Wetche / GHS Productions

Atuações geniais de Meryl Streep e Tommy Lee Jones em filme sobre a corrosão do amor e o vazio emocional, na Netflix

Há filmes que erram na embalagem, mas acertam nas rachaduras da alma. “Um Divã para Dois” é um desses casos. Sob a aparência plastificada de uma comédia leve, embalada por canções genéricas e cores neutras que lembram do conforto estéril dos catálogos de streaming, se esconde um retrato inquietante — e por vezes doloroso — daquilo que se esfarela entre dois corpos que, há décadas, dividem a mesma cama sem realmente se tocarem.

Últimos dias na Netflix: o filme que transformou milhares de vidas está prestes a sair do catálogo Zade Rosenthal / Columbia Pictures

Últimos dias na Netflix: o filme que transformou milhares de vidas está prestes a sair do catálogo

Em “As Vinhas da Ira”, John Ford suavizou a brutalidade do texto de Steinbeck, substituindo a decomposição da família Joad por uma centelha de esperança que pudesse ser digerida sem amargor. Décadas depois, “À Procura da Felicidade” recorre a estrutura semelhante: em vez de se deter nas engrenagens que esmagam os vulneráveis, prefere contar a história de quem, por milagre de esforço e sorte, escapa.

Martin Scorsese convenceu Joe Pesci a retornar da aposentadoria para esse último filme, na Netflix Divulgação / Netflix

Martin Scorsese convenceu Joe Pesci a retornar da aposentadoria para esse último filme, na Netflix

Martin Scorsese, em “O Irlandês”, não apenas revisita o universo da máfia americana — ele o exuma. A câmera não é mais cúmplice da glória dos crimes, mas testemunha discreta de um passado que apodrece em silêncio. Aqui, o glamour antes associado à vida dos gângsteres se dissolve numa névoa de arrependimento, solidão e fim. Scorsese ergue uma elegia devastadora aos homens que confundiram lealdade com obediência cega, e poder com permanência.

Filme que fez as pessoas desmaiarem e vomitarem nos cinemas é também maior bilheteria de língua não inglesa da história, na Netflix Divulgação / Icon Productions

Filme que fez as pessoas desmaiarem e vomitarem nos cinemas é também maior bilheteria de língua não inglesa da história, na Netflix

Mel Gibson não filmou “A Paixão de Cristo” como quem deseja contar uma história — ele a esculpiu como quem escava uma ferida. A escolha de retratar, com obsessiva minúcia, os momentos finais da vida de Jesus vai bem além de um exercício devocional ou histórico. O filme não sugere empatia; exige confronto. Com o idioma original da época e uma câmera que se recusa a desviar o olhar da tortura, o longa expõe um corpo desfigurado como ícone da fé, rasgando o verniz estético que usualmente envolve narrativas religiosas e substituindo-o por carne aberta, ossos expostos e silêncio forçado.