Anthony Bourdain (Dominic Sessa) chega a Provincetown, no litoral de Massachusetts, durante um verão de sua juventude, depois de perder uma bolsa de estudos para escrever. Aos 19 anos, ainda pretende se tornar romancista, mas também tem um motivo menos profissional para escolher a cidade. Nancy (Emilia Jones), uma antiga paixão da escola, passará a temporada por lá. Em “Tony”, de Matt Johnson, o futuro chef começa a trabalhar em um restaurante enquanto tenta conquistar a garota e esconder a insegurança por trás de sua conversa confiante.
Antes da viagem, Bourdain apresenta um projeto literário a uma comissão de Vassar. Fala com desenvoltura, aposta no próprio talento e sai acreditando que o dinheiro está garantido. Sessa dá ao personagem aquela segurança juvenil que costuma sobreviver muito bem enquanto ninguém pede resultados. Quando a bolsa é recusada, porém, faltam recursos para sustentar o plano. Procurar Nancy oferece uma ocupação mais agradável do que permanecer em casa explicando o fracasso.
Johnson escolhe acompanhar esse período sem a obrigação de percorrer toda a vida de Bourdain. O interesse está no rapaz que ainda precisa descobrir o que consegue fazer, longe do reconhecimento que seu nome receberia depois. Essa escolha favorece Sessa, que pode construir um jovem contraditório, por vezes inconveniente, sem passar cada cena anunciando a celebridade que ele se tornará.
Uma paixão com planos próprios
Nancy desperta em Tony o desejo de parecer mais experiente e bem encaminhado do que está. Ele se apresenta com confiança, omite frustrações e aposta no charme para conseguir sua atenção. Sessa deixa transparecer o esforço por trás dessa postura. Há inteligência no personagem, mas também uma preocupação constante em obter a aprovação dos outros.
Emilia Jones dá à garota uma presença que impede o romance de depender apenas da insistência dele. Nancy tem interesses e compromissos próprios. O fato de Tony viajar até Provincetown não lhe assegura um lugar na vida dela, e essa diferença ajuda a manter os encontros longe de uma fantasia de conquista garantida. Para alguém acostumado a valorizar a própria conversa, conviver com uma pessoa que não está à sua disposição exige algum aprendizado.
Johnson trabalha bem o constrangimento dessas aproximações. Tony quer parecer espontâneo, embora tenha escolhido o destino por causa dela. Sua autoconfiança guarda uma dose de encenação, reconhecível em quem já tentou impressionar uma paixão e acabou falando mais do que deveria. O personagem pode ser irritante, mas Sessa preserva a vulnerabilidade que torna sua companhia interessante.
Um emprego entre ostras e pedidos
No restaurante, o rapaz passa a conviver com exigências que não se resolvem com vocabulário sofisticado. Os clientes querem comer, os pedidos se acumulam e o cardápio depende da pesca do proprietário. Mesmo quando os pratos oferecem pouca variedade, o volume de trabalho mantém os funcionários ocupados. Tony precisa acompanhar uma rotina que já existia antes de sua chegada e continuará cobrando serviço, independentemente de seus planos literários.
É nesse ambiente que “Tony” ganha mais força. Johnson se interessa pelas relações entre pessoas que trabalham juntas sob pressão, dividem pouco espaço e conhecem os defeitos umas das outras. O emprego oferece ao protagonista uma maneira de permanecer na cidade, mas também o obriga a sair da posição confortável de quem apenas descreve suas ambições.
A diferença entre a imagem que ele cultiva e sua condição de novato rende graça sem exigir piadas a cada conversa. Ali, ninguém pode servir uma boa apresentação pessoal no lugar do jantar. O rapaz que imaginava impressionar uma comissão precisa conquistar a confiança de colegas que têm outras preocupações e pouca disponibilidade para admirar seu potencial.
Sal oferece companhia e excessos
Sal (Leo Woodall) aproxima Tony do grupo e se apresenta com a autoridade de quem conhece aquele ambiente. É expansivo, grosseiro e orgulhoso de suas conquistas sexuais, que registra com marcas em uma porta. Também consome cocaína para atravessar o expediente. Sua companhia oferece ao recém-chegado uma sensação de pertencimento, acompanhada da pressão para aceitar hábitos que já fazem parte da rotina dos colegas.
Woodall dá ao personagem um magnetismo incômodo. Sal pode parecer divertido e acolhedor para alguém que procura amigos, embora seu comportamento também exponha uma necessidade permanente de exibir virilidade. Tony ganha acesso à intimidade do grupo, mas passa a conviver com uma ideia de vida adulta em que resistência física, sexo e drogas valem como credenciais.
O diretor mantém essas contradições próximas do trabalho. Os excessos não ficam isolados em uma aventura de verão sem custos. Eles entram no expediente e afetam a maneira pela qual os funcionários atravessam as horas. Para Tony, acompanhar Sal significa também se aproximar de uma rotina de desgaste.
Banderas dá peso ao trabalho
O chef interpretado por Antonio Banderas oferece outra referência. Experiente, religioso e exigente, ele trata a cozinha com uma seriedade que contrasta com o exibicionismo de Sal. Banderas dispensa grandes demonstrações de autoridade. Seu personagem tem a presença de alguém que conhece o ofício e já não precisa transformar cada conversa em uma disputa por atenção.
A relação entre ele e Tony sustenta algumas das passagens mais interessantes da história. O jovem chegou à cidade pensando em literatura e romance, mas agora convive com um homem capaz de avaliar sua disposição para trabalhar. Banderas dá humanidade a essa figura sem torná-la uma coleção de conselhos. Há experiência em seus gestos, além de uma relação pessoal com a profissão que o novato ainda está começando a conhecer.
Sessa responde bem a esse convívio. Seu Bourdain alterna arrogância, curiosidade e desconforto, às vezes dentro de uma mesma conversa. Johnson mantém o rapaz próximo o suficiente para que seus defeitos apareçam, sem retirar dele a possibilidade de despertar afeto. Entre Nancy, Sal e o chef, Tony tenta conseguir amor, companhia e reconhecimento. Na cozinha, entretanto, precisa cumprir o turno antes de descobrir o que fará depois.

