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Na Irlanda de 1892, o trabalhador rural Joseph Donnelly (Tom Cruise) decide partir para os Estados Unidos com Shannon Christie (Nicole Kidman), filha de um rico proprietário de terras. Ele quer um pedaço de chão onde possa trabalhar por conta própria. Ela deseja abandonar uma vida confortável, mas submetida às expectativas da família. Em “Um Sonho Distante”, lançado em 1992, Ron Howard aproxima esses dois desconhecidos pela promessa de uma nova vida em Oklahoma. Antes de chegar lá, porém, eles precisam sobreviver em Boston, onde a disposição para recomeçar vale pouco sem dinheiro para comida e alojamento.

O encontro nasce de uma disputa. Joseph responsabiliza o proprietário Daniel Christie (Robert Prosky), pai de Shannon, pela morte de seu pai e vai atrás dele para se vingar. A tentativa o coloca em dificuldades com Stephen Chase (Thomas Gibson), administrador das terras e pretendente da jovem. Shannon aproveita a presença daquele rapaz para executar seu plano de fuga. Ter um acompanhante na viagem lhe parece conveniente. Para Joseph, aceitar a proposta significa deixar para trás uma situação em que tem poucas chances de sair ganhando.

Dois passageiros com planos diferentes

Embora embarquem juntos, os dois carregam ideias distintas sobre a América. Joseph conhece o trabalho pesado e a dependência de quem cultiva uma propriedade alheia. Ser dono de terra representa a possibilidade de decidir o que fazer com o próprio esforço. Shannon imagina um lugar onde possa escolher seu futuro sem pedir licença aos pais ou aceitar o casamento que esperam dela. Ambos querem liberdade, mas o significado dessa palavra depende bastante do lado da cerca em que cada um nasceu.

Essa diferença dá ao romance seus melhores atritos. Shannon tem iniciativa, coragem e o hábito de esperar que suas vontades sejam atendidas. Joseph está acostumado a receber ordens, mas não pretende continuar obedecendo à filha de um patrão depois de atravessar o oceano. Kidman interpreta a jovem sem apagar essa mistura de entusiasmo e arrogância. É possível gostar dela e, poucos minutos depois, desejar que alguém lhe explique quanto custa manter suas ambições.

Cruise oferece a Joseph uma combinação de orgulho, impulsividade e disposição física. Seu personagem aceita a companhia de Shannon, mas resiste ao lugar de subordinado que ela por vezes lhe reserva. As discussões têm graça porque os dois precisam um do outro e prefeririam não admitir. Howard aproveita essa convivência para aproximá-los aos poucos, entre pequenas disputas e cuidados que nenhum deles parece disposto a chamar de afeto.

Boston fica no meio do caminho

A chegada aos Estados Unidos interrompe o entusiasmo da partida. Oklahoma ainda está longe, e seguir viagem exige recursos. Antes de pensar em propriedade, os recém-chegados precisam encontrar onde dormir e o que comer. Boston deixa de ser uma passagem e passa a ocupar seus dias. A cidade impõe despesas, trabalho e uma rotina muito menos atraente que a promessa de terras.

Howard acerta ao dedicar atenção a essa demora. O sonho dos protagonistas ganha consistência quando precisa caber no orçamento. Joseph pode desejar uma fazenda, mas ainda depende de dinheiro para permanecer na cidade. Shannon pode rejeitar o conforto dos pais, mas descobre que abrir mão dele também significa assumir tarefas que antes pertenciam aos empregados. A independência vem acompanhada de obrigações que ela conhecia apenas à distância.

Para se sustentar, Joseph começa a lutar boxe sem luvas. É uma saída coerente para alguém que dispõe de força e resistência, mas possui poucos recursos além do próprio corpo. Os combates lhe oferecem dinheiro e uma atenção à qual não estava acostumado. O rapaz deixa de ser apenas mais um trabalhador recém-chegado e passa a experimentar o prazer de ser reconhecido.

O orgulho também cobra seu preço

Cruise se sai bem nessa etapa, sobretudo ao mostrar o quanto Joseph gosta da importância que recebe. Há algo de ingênuo em seu entusiasmo. Depois de uma vida com poucas escolhas, ele encontra uma atividade que parece recompensar seu esforço. Howard, contudo, se demora um pouco nessa celebração. A energia das lutas sustenta o interesse, mas algumas passagens prolongam uma situação que já foi bem apresentada.

Shannon também precisa trabalhar, e Kidman dá peso ao desconforto dessa adaptação. A jovem quer autonomia, mas não tem experiência com as condições que agora precisa aceitar. Seu sobrenome perdeu a utilidade que possuía na Irlanda. Em Boston, a origem rica não paga as despesas, tampouco garante que alguém vá facilitar seu dia.

É nessa convivência menos confortável que a atração entre os protagonistas se torna mais convincente. Joseph conhece a segurança material que Shannon deixou para trás e sabe que tem pouco a oferecer. Ela precisa lidar com um homem que a ajuda, mas não aceita ser tratado como empregado. O carinho cresce entre essas diferenças, sem apagar o orgulho ou as inseguranças de cada um.

Uma promessa de terra e companhia

Howard gosta de romances de grande escala e investe sem constrangimento na emoção. Em alguns trechos, insiste demais em sentimentos que os atores já conseguiram transmitir. A história perde leveza quando cada reação recebe tanta ênfase. Nas discussões e nos gestos menores, porém, Cruise e Kidman sustentam uma relação mais interessante, em que desejo e irritação podem dividir a mesma conversa.

“Um Sonho Distante” também pede certa disposição para acompanhar o entusiasmo com que o diretor apresenta a promessa americana. O desejo de conquistar terras recebe mais atenção que as perguntas históricas envolvidas nessa oferta. Essa escolha limita o alcance da aventura, embora preserve o foco no que Joseph e Shannon procuram ao abandonar a Irlanda.

Howard mantém os pés dos personagens no chão, ocupados com trabalho, abrigo e dinheiro. Joseph e Shannon podem sonhar com uma vida juntos ou com uma propriedade, mas precisam resolver o dia seguinte antes de qualquer conquista. É nessa distância entre o que desejam e o que conseguem pagar que a viagem ganha interesse. Oklahoma continua à espera enquanto os dois procuram uma maneira de sair de Boston.


Filme: Um Sonho Distante
Diretor: Ron Howard
Ano: 1992
Gênero: Aventura/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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