O teor de denúncia contra as injustiças e a barbárie num território de grandes e pequenos tiranos que se valem de um estado de permanente motim a fim de impor suas vontades é uma das ambições que pode ter um filme chamado “Beasts of the Southern Wild”. Essas “feras do sul selvagem” trucidam a liberdade, a esperança e a inocência da indomável sonhadora do título em português, uma menina que aprende desde cedo que não pode contar com ninguém, lição dura, mas útil. Benh Zeitlin olha para episódios de uma violência peculiar com certa brandura, sublinhando o absurdo da miséria e da profanação de direitos os mais comezinhos. Zeitlin e a corroteirista Lucy Alibar vertem a peça “Juicy and Delicious”, de Alibar, numa narrativa que pende para o realismo fantástico, indignada contra a indignidade.
Infância roubada
Aos seis anos, Hushpuppy e o pai, Wink, podem ser varridos do mapa por uma forte tormenta. Eles e os outros moradores da Banheira, uma comunidade isolada da Louisiana, enfrentam primeiro a realidade de uma vida sem norte, ponto de partida da reflexão de Zeitlin, que inventa esse lugarejo para situar figuras humanas bem reais e falar de dores teimosas. Aquele flerte contínuo com o sonho, tão próprio das crianças, vira uma jornada em busca do tempo perdido, e pode-se assistir a Hushpuppy combatendo auroques, criaturas pré-históricas que encarnam os seus receios mais íntimos. Zeitlin dedica boa parte dos 93 minutos às divagações da menina, mas também sabe desdobrar a tensão do relacionamento de Hushpuppy e Wink, cenas dominadas pelo carisma de Quvenzhané Wallis e Dwight Henry. A fotografia de Ben Richardson suaviza toda a rudeza — e Wallis merecia seu histórico Oscar.

