Nos Estados Unidos dos anos 1960, Madalyn Murray O’Hair (Melissa Leo) procura a Justiça para impedir que o filho seja obrigado a participar de orações na escola pública. Ateia, ela defende que a instituição não imponha uma crença aos alunos. A disputa transforma essa mãe em uma figura conhecida e hostilizada no país. Esse é o ponto de partida da vida pública retratada em “A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos”, drama biográfico de 2017 dirigido por Tommy O’Haver, que acompanha sua militância e o sequestro sofrido em 1995.
O’Haver começa pelo crime e depois volta ao passado para apresentar a mulher mantida em cativeiro. Madalyn está com o filho Jon Garth Murray (Michael Chernus) e a neta Robin Murray O’Hair (Juno Temple), sob o poder de homens que querem dinheiro. Entre eles está David Waters (Josh Lucas), um antigo funcionário de sua organização. A presença de alguém conhecido acrescenta um perigo particular à situação. Waters sabe com quem está lidando e conhece a estrutura financeira que pretende explorar.
Uma mãe enfrenta a escola
Antes do sequestro, Madalyn já havia passado décadas comprando brigas. A primeira grande disputa apresentada nasce de uma questão cotidiana. Seu filho frequenta uma escola pública e precisa participar de uma prática religiosa que contraria as convicções da família. Ela protesta, procura os tribunais e participa da batalha que chega à Suprema Corte contra a imposição de exercícios religiosos nas escolas.
A vitória lhe dá projeção, mas também atrai ameaças e ataques pessoais. Melissa Leo interpreta essa passagem sem transformar Madalyn numa mulher dócil para facilitar a simpatia do público. Sua personagem é impaciente, provocadora e capaz de tornar qualquer conversa bastante cansativa para quem discorda dela. Essa aspereza ajuda a sustentar o interesse pela protagonista. É possível reconhecer a importância de sua reivindicação e, ainda assim, imaginar o esforço necessário para dividir uma mesa de jantar com ela.
O problema está na pressa com que O’Haver atravessa essa fase. A reclamação escolar, a disputa judicial e a fama recebem pouco espaço para uma história tão rica em conflitos. O espectador acompanha os principais acontecimentos, mas conhece menos do que poderia sobre o trabalho da ativista e as resistências que ela enfrentou até conquistar uma decisão favorável.
A fama entra em casa
Madalyn funda a American Atheists, reúne apoiadores e passa a ocupar programas de televisão e debates públicos. As doações ajudam a manter a organização e colocam dinheiro sob sua administração. Ela sabe provocar adversários religiosos e atrair atenção. Leo dá energia a essas aparições, preservando o gosto da personagem pela discussão e pela oportunidade de irritar quem gostaria de silenciá-la.
Em casa, porém, a exigência de lealdade cobra um preço. O filho mais velho, Bill Murray (Vincent Kartheiser), tem dificuldade para construir uma vida que não dependa das escolhas maternas. Seu envolvimento com a militância prejudica o casamento, e as diferenças entre os dois tornam a convivência cada vez mais difícil.
É nesse relacionamento que a personagem ganha uma contradição importante. Madalyn exige liberdade para contestar a religião, mas reage mal quando o filho procura outro caminho. A interpretação de Leo sustenta esse incômodo sem pedir desculpas pela protagonista. Falta ao roteiro permanecer mais tempo com a família para que o afastamento tenha todo o peso que merece. Algumas mudanças pessoais chegam depressa demais, sobretudo para quem não conhece a história real.
Um funcionário conhece demais
Jon Garth e Robin permanecem próximos de Madalyn e compartilham sua rotina. Essa ligação também os expõe aos riscos que cercam a ativista. Quando os três são sequestrados, a preocupação deixa de ser apenas com a mulher acostumada a receber ameaças. Filho e neta estão presos numa disputa financeira da qual não podem simplesmente sair.
David Waters ocupa o centro dessa parte da história. Antigo funcionário da American Atheists, ele usa o conhecimento adquirido durante a convivência para exigir dinheiro. Josh Lucas dá ao personagem uma familiaridade desconfortável. Waters conhece a personalidade de Madalyn, enquanto ela precisa lidar com alguém que já teve acesso à sua confiança.
No cativeiro, a disposição da ativista para discutir continua presente, mas suas palavras têm outro alcance. Diante dos sequestradores, uma provocação pode colocar os três em perigo. Essas passagens estão entre as mais tensas porque dependem de uma relação concreta entre pessoas que se conhecem. O’Haver consegue despertar preocupação com os reféns, embora as voltas ao passado interrompam algumas situações antes que elas recebam a atenção necessária.
Poucos se dispõem a procurar
Fora do cativeiro, Roy Collier (Brandon Mychal Smith), colaborador de Madalyn, procura o jornalista Jack Ferguson (Adam Scott). Ele quer ajuda para descobrir o que aconteceu, diante da pouca atenção dada ao desaparecimento. A mulher conhecida por enfrentar autoridades e líderes religiosos depende agora da insistência de pessoas dispostas a procurá-la.
Smith oferece uma presença afetuosa numa história dominada por relações ásperas. Scott interpreta o repórter que começa a buscar informações, mas essa investigação também merecia mais espaço. O roteiro divide o tempo entre a vida pública, os conflitos domésticos e o crime, sem desenvolver todas essas frentes com o mesmo cuidado.
“A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos” fica mais empolgante sempre que Melissa Leo pode sustentar as contradições de Madalyn numa conversa ou numa discussão familiar. A atriz torna crível uma mulher que defendia um direito legítimo e podia ferir quem estava perto. O’Haver, por sua vez, acumula episódios quando seria mais proveitoso permanecer em alguns deles. Ainda assim, a busca iniciada por Roy e Ferguson traz uma preocupação humana que a fama da protagonista havia deixado em segundo plano. Enquanto muitos conhecem seu nome, são poucos os que começam a procurá-la.

