Lúcia Rossetti (Marieta Severo) está acostumada a decidir o que acontece dentro de casa, mas não consegue resolver o problema que mais a aflige. Sua filha, Maíra (Alice Wegmann), sofre de uma doença desconhecida. Em busca de uma cura, a colecionadora de arte procura a terapeuta espiritual Irina (Nanda Costta), sem saber que está abrindo a intimidade e o patrimônio da família a uma golpista. Esse é o ponto de partida de “Dom de Iludir”, série brasileira que estreia em 28 de outubro de 2026 na Netflix, ambientada entre famílias ricas do Rio de Janeiro.
Com direção geral de Mauro Mendonça Filho e episódios dirigidos por Gabriela Amaral Almeida e Daniela Carvalho, a produção reúne crime, conflitos familiares e promessas de salvação. O golpe oferece um motivo para acompanhar a história, mas a relação entre mãe e filha desperta mais interesse. Antes da chegada de Irina, as duas já têm dificuldades suficientes para dividir o mesmo teto. A doença agrava uma convivência na qual o carinho vem acompanhado de fiscalização.
Uma mãe que decide demais
Maíra quer ter liberdade, inclusive para gastar seu dinheiro e fazer escolhas que desagradem à mãe. Lúcia, por sua vez, interfere em assuntos que vão da alimentação da filha à compra de bonecas. A herança que a jovem tem a receber também entra nas discussões. São detalhes que ajudam a compreender o desgaste entre elas. Para Maíra, conquistar autonomia exige enfrentar alguém que usa a preocupação materna para continuar dando ordens.
Marieta Severo dá força a essa mistura de afeto e autoritarismo. Sua personagem pode sofrer pela filha e, ainda assim, tornar a vida dela sufocante. Essa combinação torna Lúcia mais interessante do que uma mãe simplesmente cruel. Ela quer ajudar, mas tem dificuldade para admitir que Maíra possa desejar algo diferente do que considera melhor.
Alice Wegmann trabalha com uma personagem igualmente sujeita a contradições. Maíra busca independência, embora continue presa aos recursos e aos vínculos da família. Seu ressentimento tem razões reconhecíveis, mas suas reações nem sempre facilitam a convivência. As atrizes sustentam bem esse vínculo porque deixam espaço para o amor e para a irritação. Quem já participou de uma discussão familiar sobre dinheiro reconhecerá o desconforto, mesmo sem ter uma coleção de arte na sala.
A cura prometida tem outro preço
Irina se aproxima quando Lúcia está fragilizada pela saúde da filha. A terapeuta oferece esperança a uma mulher que tem dinheiro, influência e pouca tolerância à sensação de impotência. Para a golpista, essa aflição representa uma oportunidade. Ao conquistar a confiança da colecionadora, ela obtém acesso a uma família cujos bens despertam interesse criminoso.
A escolha de Lúcia tem uma lógica emocional convincente. O desespero pode comprometer o julgamento de alguém competente em muitos outros assuntos. Conhecer o mercado de arte não protege uma mãe contra quem promete aliviar o sofrimento de sua filha. O problema começa quando a promessa de ajuda passa a justificar concessões que, em outra situação, provavelmente provocariam desconfiança.
Nanda Costta ocupa esse espaço com uma personagem que precisa parecer confiável enquanto busca vantagens. Irina também tem conflitos e interesses familiares, o que acrescenta dificuldades aos seus planos. Essa dimensão poderia receber mais atenção. Ainda assim, a atriz dá presença à vigarista e mantém o interesse nas relações que ela estabelece com as outras duas protagonistas.
A coleção vira alvo
As obras de arte dão ao golpe um objetivo concreto. Irina se aproxima por meio da promessa de cuidado, mas o patrimônio de Lúcia torna essa aproximação lucrativa. O dinheiro também pesa nas brigas entre mãe e filha. A fortuna oferece segurança à família e permite que a colecionadora conserve poder sobre a vida de Maíra.
Essa ligação entre afeto e patrimônio é um dos pontos mais interessantes de “Dom de Iludir”. Lúcia aceita correr riscos para ajudar a filha, enquanto Maíra deseja escapar da dependência que fortalece a autoridade materna. Irina se beneficia dessa relação desgastada. Ela chega a uma casa onde já existem mágoas, cobranças e dificuldade para confiar.
O suspense depende dessa vulnerabilidade, mas perde força quando as reações ficam excessivas. As personagens agravam os próprios problemas com tanta frequência que algumas decisões passam a parecer convenientes para prolongar as brigas. A disposição para criar novas complicações mantém os episódios movimentados, embora nem sempre torne os acontecimentos convincentes.
As atrizes sustentam os excessos
Marieta, Alice e Nanda ajudam a preservar o interesse quando o roteiro força a intensidade das situações. As três têm boa química e conseguem dar peso a sentimentos reconhecíveis, mesmo nos trechos em que as atitudes pedem uma dose generosa de tolerância do espectador. A vontade de proteger alguém, o desejo de independência e a cobiça oferecem uma base mais firme do que o acúmulo de reviravoltas.
“Dom de Iludir” rende mais quando permanece perto dessas mulheres e do que cada uma pretende obter. Rende menos quando transforma qualquer contrariedade em motivo para uma nova crise. Há diversão nessa falta de cerimônia com o exagero, mas também certo cansaço quando uma discussão mal termina e outra já exige atenção.
O melhor motivo para continuar está na relação entre Lúcia e Maíra. A mãe oferece proteção com condições que a filha já não suporta. A jovem exige liberdade dentro de uma casa onde ainda depende de dinheiro e aprovação. Irina aproveita essa distância para se aproximar das duas. Ao procurar alguém que salve Maíra, Lúcia permite que uma desconhecida participe das decisões da família e se aproxime dos bens que ela pretendia preservar.

