Na Nova York dos anos 1960 e início dos 1970, o policial Frank Serpico (Al Pacino) recusa dinheiro de propinas e denuncia os colegas porque acredita que combater o crime também exige honestidade dentro da delegacia. Essa convicção, bastante razoável para quem acaba de ingressar na profissão, transforma seu cotidiano em uma experiência de isolamento e medo. Em “Serpico”, de 1973, Sidney Lumet acompanha um homem que precisa trabalhar ao lado daqueles que têm motivos para desejar seu silêncio.
Baseado na história real do policial e no livro de Peter Maas, o drama apresenta a corrupção pelo efeito que ela exerce nas relações entre os agentes. Frank quer investigar crimes, fazer prisões e voltar para casa. Seus colegas, porém, esperam que ele aceite uma parte do dinheiro arrecadado ilegalmente. Receber significa participar do acordo. Recusar desperta uma pergunta perigosa entre os envolvidos. Até onde aquele sujeito está disposto a ir?
Um policial que destoa dos colegas
Frank já causa estranheza antes de questionar os pagamentos. Usa barba, deixa o cabelo crescer e prefere roupas que pouco lembram a imagem convencional de um investigador. Fora do expediente, frequenta o ambiente boêmio de Greenwich Village e preserva interesses que não cabem na rotina da corporação. Para alguns companheiros, o guarda-roupa do novato parece exigir quase tanta investigação quanto os crimes da cidade.
Pacino dá a essa diferença uma simpatia que vai perdendo espaço para o desgaste. No começo, Frank demonstra entusiasmo e vontade de pertencer à polícia sem abandonar sua personalidade. Ele acredita na profissão, embora tenha pouca afinidade com os hábitos de quem trabalha ao seu lado. A aparência chama atenção, mas a recusa das propinas provoca uma rejeição muito mais séria.
Lumet é especialmente atento a essa passagem. Um colega excêntrico ainda pode ser tolerado. Um colega que rejeita dinheiro ilegal ameaça a segurança dos demais, pois permanece livre para denunciá-los. Frank deixa de ser apenas o sujeito de roupas incomuns e passa a ser alguém cuja presença exige cuidado nas conversas.
A propina faz parte do expediente
Nas delegacias, Serpico encontra policiais habituados a receber dinheiro de criminosos. Os pagamentos complementam os rendimentos e garantem cumplicidade entre os participantes. Ninguém precisa explicar demais um costume que todos conhecem. Quando Frank rejeita sua parte, interrompe uma rotina sustentada pela expectativa de adesão.
O roteiro acerta ao apresentar esse constrangimento sem transformar cada encontro em uma discussão solene sobre ética. Para os envolvidos, o problema está naquele homem que insiste em não aceitar uma vantagem disponível. A honestidade passa a ser tratada como uma atitude inconveniente, quase uma provocação pessoal.
Pacino também impede que Frank se torne um exemplo de virtude sem temperamento. Seu personagem é impaciente, teimoso e, em certas conversas, pouco habilidoso. Ele cobra providências com a irritação de quem já repetiu o mesmo relato várias vezes. Essa aspereza torna o policial mais próximo. Há um homem cansado ali, incapaz de compreender por que precisa justificar a decisão de cumprir a lei.
As denúncias esbarram nos superiores
Frank procura autoridades dentro da corporação porque espera que alguém investigue os pagamentos e lhe ofereça proteção. Entre os integrantes da hierarquia está o chefe Sidney Green (John Randolph). O acesso aos superiores, entretanto, não garante que suas informações resultem em providências. Ser ouvido e receber ajuda tornam-se experiências bastante diferentes.
É nessa espera que Lumet constrói parte do incômodo. Serpico precisa contar o que sabe, identificar irregularidades e confiar em pessoas que ocupam cargos de comando. Depois, volta ao trabalho sem a segurança de que suas reclamações terão algum efeito. Cada tentativa exige exposição, enquanto a possibilidade de proteção permanece incerta.
Bob Blair (Tony Roberts), um colega com contatos na administração, participa dos esforços para levar as denúncias adiante. Sua presença oferece a Frank uma parceria importante, mas também revela as dificuldades de obter uma investigação. Nem mesmo alguém familiarizado com os caminhos da instituição consegue obrigar as autoridades a agir.
A sucessão de conversas pode tornar alguns trechos demorados. Ainda assim, essa insistência ajuda a perceber o tamanho do desgaste. Frank precisa continuar procurando ajuda porque desistir significaria aceitar as condições impostas pelos colegas. Persistir, por sua vez, faz suas queixas circularem entre pessoas que talvez prefiram abafá-las.
O medo acompanha o trabalho
O suspense cresce quando Serpico já não consegue confiar nos parceiros com quem divide as ocorrências. Um policial depende da colaboração dos outros para entrar em lugares perigosos, abordar suspeitos e pedir socorro. Frank continua sujeito a essas necessidades, embora saiba que sua atitude despertou hostilidade dentro da equipe.
Lumet faz essa insegurança ocupar o cotidiano. O perigo está na dúvida sobre quem atenderá a um chamado ou oferecerá ajuda quando ele precisar. Sem antecipar os acontecimentos decisivos, essa dependência basta para tornar desconfortável uma tarefa aparentemente rotineira. Serpico precisa prestar atenção aos suspeitos e aos homens que deveriam protegê-lo.
Pacino carrega essa mudança com uma atuação que combina energia, irritação e exaustão. A confiança do início vai dando lugar a um estado de vigilância que dificulta qualquer descanso. Mesmo quando reage com dureza, Frank preserva algo comovente naquela expectativa de que uma autoridade finalmente faça seu trabalho.
“Serpico” é um drama policial vigoroso porque Lumet deixa a denúncia ligada às necessidades de uma pessoa. Frank quer exercer a profissão sem receber dinheiro de criminosos e procura ajuda para conseguir fazê-lo. Quanto mais insiste, menos companhia tem. Depois de cada conversa frustrada, ainda precisa retornar à delegacia e sair para o serviço com os colegas que denunciou.

