Em uma Londres do futuro governada por uma ditadura, a funcionária de televisão Evey Hammond (Natalie Portman) é perseguida após se envolver com um homem que pretende derrubar o regime. Conhecido apenas como V (Hugo Weaving), ele usa uma máscara de Guy Fawkes, enfrenta agentes armados e planeja ataques contra os representantes do poder. Em “V de Vingança”, lançado comercialmente em 2006 e dirigido por James McTeigue, a aproximação entre os dois começa com um resgate. Ela precisa sobreviver. Ele quer transformar a insatisfação dos britânicos em revolta.
Evey conhece V quando sai à noite e é abordada por agentes que fiscalizam o toque de recolher. Os homens a ameaçam, aproveitando a autoridade do cargo para agir sem receio de punição. O mascarado intervém e a salva, mas sua presença traz outros perigos. Procurado pelo governo, ele chama atenção por onde passa e faz questão de assumir a autoria de suas ações. Para uma jovem que tentava preservar alguma normalidade, acompanhá-lo significa perder a possibilidade de passar despercebida.
O protetor também impõe regras
V leva Evey para um esconderijo subterrâneo repleto de livros, discos e obras de arte. O lugar oferece um contraste com as ruas vigiadas e a programação obediente da televisão. Ali, existem música, comida e alguma tranquilidade. Existe também uma condição que torna a hospitalidade menos agradável. Para manter o endereço em segredo, ele determina que a visitante permaneça no local por um ano.
Natalie Portman dá credibilidade à reação da personagem. Evey sente gratidão por estar viva, mas não aceita com facilidade que seu salvador decida quanto tempo ela ficará confinada. A atriz preserva essa mistura de medo, indignação e curiosidade. A convivência desperta afeto sem apagar o desconforto de depender de alguém que esconde o rosto e controla as informações.
Hugo Weaving tem uma dificuldade adicional. Sem poder recorrer às expressões faciais, precisa construir V pela voz, pela postura e pelos gestos. Seu personagem fala com solenidade, aprecia referências literárias e trata algumas aparições com o entusiasmo de um ator diante de uma plateia. Às vezes, dá vontade de pedir que termine o discurso antes que a polícia chegue. Essa vaidade, porém, ajuda a tornar o mascarado uma figura menos previsível. Ele deseja enfrentar o governo e também sabe apreciar a própria entrada em cena.
Uma transmissão fora do roteiro
A ligação de Evey com a televisão estatal ganha importância quando V ocupa a emissora e transmite uma mensagem à população. Ele convoca os britânicos para um ato no próximo 5 de novembro e estabelece um prazo para seu desafio ao governo. A data transforma suas ações em algo que as autoridades precisam acompanhar durante meses, sob o risco de perder o controle das ruas.
A invasão também atinge um recurso essencial da ditadura. A televisão seleciona o que os cidadãos podem saber e apresenta a repressão sob a aparência de proteção. Quando um homem procurado interrompe a programação, os espectadores recebem uma mensagem que não passou pela aprovação dos dirigentes. Para os funcionários da emissora, entre eles Evey, a intervenção cria um problema bastante concreto. Qualquer gesto pode ser interpretado pela polícia como colaboração.
McTeigue dá velocidade a essas passagens sem perder de vista a vulnerabilidade da jovem. Ela está cercada por pessoas que possuem armas, ordens e objetivos definidos, enquanto tenta decidir o que fazer com informações incompletas. Essa diferença mantém o interesse para além das lutas. Evey não dispõe da preparação de V nem dos recursos de seus perseguidores.
O governo cobra uma captura
À frente do regime, o chanceler Adam Sutler (John Hurt) exige que seus subordinados encontrem o responsável pelos ataques. Sua imagem aparece numa tela enorme durante reuniões em que os demais participantes quase parecem esperar uma repreensão do diretor da escola. A composição tem pouca sutileza, mas traduz bem a relação entre aqueles homens. Sutler ordena. Aos outros cabe cumprir e apresentar resultados.
Hurt interpreta o dirigente com uma agressividade que, em algumas passagens, pesa a mão. O mesmo acontece com certas falas de V, escritas para permanecer na memória mesmo quando interrompem uma conversa que poderia ser mais espontânea. São excessos perceptíveis numa história que ganha força quando permite observar comportamentos, sem acrescentar uma declaração solene a cada acontecimento.
O inspetor Eric Finch (Stephen Rea) oferece um contraponto a essa disputa de vozes. Encarregado de capturar V, ele procura pistas, ouve pessoas e estabelece relações entre informações que chegam de forma fragmentada. Rea interpreta o policial com cansaço e atenção, sem precisar anunciar cada dúvida. Conforme a investigação avança, Finch passa a lidar com indícios desconfortáveis para as autoridades às quais deve obediência.
A confiança tem um custo
A investigação policial acrescenta suspense porque abre uma distância entre aquilo que o governo divulga e o que seu próprio funcionário consegue apurar. Finch precisa localizar um suspeito, mas as perguntas o aproximam de assuntos que seus superiores prefeririam manter encerrados. Seguir trabalhando com seriedade passa a criar dificuldades dentro da instituição que representa.
Evey enfrenta outra espécie de desconfiança. V oferece cultura, companhia e proteção, mas também emprega violência e exige sacrifícios de quem se aproxima. O carinho entre os dois não encerra essa contradição. Portman sustenta a apreensão de uma mulher que precisa escolher em quem confiar quando nenhuma das alternativas lhe permite sentir segurança.
As cenas de ação e a presença marcante do mascarado dão energia à aventura, enquanto Evey mantém o custo humano das decisões em primeiro plano. Ela terá de conviver com os efeitos de cada escolha muito depois de V terminar suas falas. Sair do esconderijo significa voltar a uma cidade onde seu rosto pode ser reconhecido e sua ligação com o fugitivo pode levá-la à prisão.

