Quem estava em Brasília no mês de dezembro de 1986 assistiu a um acontecimento único. Daqueles eventos que se veem apenas uma vez e não se repetem mais. Não houve registro de áudio ou imagem. O grupo Legião Urbana retornou à sua cidade e subiu ao palco da Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional. O tradicional palco de madeira recebeu a banda para apresentar o repertório do então novo disco, “Dois”, lançado naquele mesmo ano.
A banda deixava de se apresentar em lanchonetes e gramados da cidade, como havia acontecido anos antes, e ocupava o espaço nobre da cultura. Foi um reconhecimento máximo. E talvez tenha sido a última oportunidade de ver a Legião Urbana de perto, diante de um público reduzido, antes do superestrelato que culminou no famoso show frustrado no Estádio Mané Garrincha, em junho de 1988. Um show que não terminou e entrou para a história como um dos grandes incidentes da cidade e do rock brasileiro.
“Dois” foi um disco marcante no rock nacional e apontou um grau de maturidade que até hoje impressiona. O primeiro disco da Legião Urbana era marcado por uma energia que parecia vir da própria distorção, de acordo com a letra de uma das canções do álbum. Havia muita força e energia dispersa, à moda de um punk rock cantado em português. Aquela obra de estreia havia sido também um ajuste de contas com os anos recentes do Brasil, um país que havia saído da ditadura militar em 1985.
A Legião Urbana chegou a 1986 com uma grande surpresa. Um disco bem aprimorado, com canções novas e também repertório antigo da banda. Surpreendia pelo uso maior de violões e teclados. O primeiro disco era basicamente baixo, bateria e guitarra – a formação clássica de uma herança do punk rock. Em “Dois”, entrava o tempero da sonoridade pós-punk, sintonizado com o que acontecia na Inglaterra. Trata-se assim de um som mais íntimo e melancólico.
A nova fase do grupo tinha uma trama de teclados, violões, contrabaixo e bateria que criava atmosferas. Não eram simplesmente gritos e refrões marcantes do primeiro disco. Entrava uma sonoridade atmosférica, voltada às percepções e aos sentimentos das pessoas. “Dois” tocou fundo nos ouvintes e foi amplamente reconhecido pelo público.
Tempo reencontrado
O disco abre com uma referência ao passado recente da própria banda. Uma vinheta mistura diversas canções do primeiro disco, como se o ouvinte buscasse uma música no rádio. A faixa “Daniel na cova dos leões” já traz uma referência bíblica, algo que se acentuaria em outros discos, como “As Quatro Estações” (1989). A música apresenta essa sonoridade renovada, com os teclados e o baixo muito mais presentes.
O próprio Renato Russo, líder do grupo, dizia que “Daniel na cova dos leões” trazia uma referência clara às questões da sexualidade, do amor de rapazes por rapazes. Um tema que apareceria mais à frente na discografia do grupo, quando ele cantaria em “Meninos e meninas” sobre gostar de meninos e meninas ao mesmo tempo.
A faixa seguinte, “Quase sem querer”, já entra nesse novo momento. A influência dos ingleses The Smiths é marcante, com a presença dos violões e uma sonoridade de rock mais acelerada e melódica. A canção também traz uma característica das letras de Renato Russo a partir de então: textos bastante extensos, que se prolongavam e nos quais os refrões não eram muito claros. Ele começava a cantar como se estivesse cantando para uma pessoa só, diretamente para quem estava ouvindo.
Já se percebia no disco toda essa influência do rock inglês da época e algumas pitadas, que ficariam mais claras em discos seguintes, de uma sonoridade ligada ao Clube da Esquina e a Milton Nascimento. Em todo o disco, a presença maior é a influência dos Smiths. Naquele mesmo ano de 1986, o grupo inglês havia lançado “The Queen Is Dead”, ponto alto de uma carreira curta.
A terceira faixa, “Acrilic on canvas”, talvez seja a mais sofisticada do disco. Nela se percebe a influência do pós-punk e a ideia de Renato Russo de construir uma letra que conta uma história de pessoas. Uma história de amores perdidos. A questão da perda é um tema forte ao longo do disco. “Acrilic on canvas” trabalha com uma sobreposição de vozes, mostrando as possibilidades do que se podia fazer com o rock no Brasil.
Na faixa seguinte, entra um dos grandes momentos do rock brasileiro: “Eduardo e Mônica”. Ali se acentua aquilo que já aparecia em “Acrilic on canvas”: o ato de contar uma história. É uma herança evidente de Bob Dylan, mestre na criação de personagens. A canção de Renato Russo é sobretudo uma narrativa de geração, mais especificamente das transformações da juventude brasileira nos anos 1980. A faixa foi a base para o filme homônimo, lançado em 2020.
Na época do long play, o LP, havia um lado A e um lado B. E o lado A de “Dois” termina com “Tempo perdido”. O tempo é um tema clássico da literatura, e é nessa canção que Renato Russo exercita sua veia drummondiana. O sentimento do mundo, no qual existe um sujeito em conflito com as coisas do mundo e da vida. Renato canta justamente isso: que tempo é esse que a gente vivia na chamada década perdida e da pós-ditadura militar?
Futuro de antes
A questão da temporalidade é intensa desde o primeiro disco da Legião Urbana. Há uma espécie de visão utópica do que aparece naqueles anos, os anos após a ditadura. Mas, gradativamente, o ponto de vista passa do registro positivo para o negativo – até chegar à esperança dispersa do disco “O Descobrimento do Brasil” (1993).
O lado B de “Dois” começa com uma sequência de três canções — “Metrópole”, “Plantas embaixo do aquário” e “Música urbana 2” — que funcionam como uma espécie de ensaio para o que virá no final do disco. Essas faixas retomam temas da atualidade e a herança punk, mas também ampliam bastante as possibilidades sonoras da banda.
Há a questão da cidade, da guerra e uma experimentação sonora. O percurso vai do punk rock de “Metrópole” à experimentação pós-punk e eletrônica de “Plantas embaixo do aquário” e chega ao puro acústico de “Música urbana 2”, com um folk forte, pesado e uma influência de Bob Dylan. As três faixas parecem um preparativo. Várias ideias são colocadas ali como ensaios, antecedendo as três últimas músicas do disco: “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Índios”.
Elas já apontam para algo que seria muito explorado no futuro pela Legião Urbana: uma trama de violões, guitarras e teclados. Em “Índios”, a questão da temporalidade volta de maneira enfática. A partir do próprio tema da canção, que pode sugerir a figura do indígena, o olhar se volta para o tempo. E é ali que surge a frase mais conhecida: “O futuro não é mais como era antigamente”. Toda aquela esperança que havia surgido em 1985 no Brasil parece se dissolver.
“Dois” foi o disco de transição que colocou a Legião Urbana em outro patamar, inclusive em relação à música popular brasileira. Como o tempo vai deixando marcas e não perdoa, é curioso olhar hoje para onde foi o país desde então. Há um sintoma curioso, e não por coincidência, na própria história daquele lugar onde a Legião Urbana se apresentou em dezembro de 1986 de forma consagradora.
O Teatro Nacional de Brasília está fechado há mais de dez anos. Não se consegue reformá-lo. Ele permanece ali como se fosse uma ruína, um monumento à barbárie, como diria Walter Benjamin. E essa ruína cultural permite pensar quase numa alegoria do próprio rock brasileiro. Um rock que teve aquele momento de esplendor continuou nos anos seguintes. Mas, ao longo do tempo, perdeu vitalidade e hoje existe basicamente em cima dessa herança do passado glorioso.

