Um vilarejo com casas que não passam de poucas dezenas, habitantes que nem chegam a duas centenas. Não tem bar nem sequer mercadinho, não tem cemitério, não tem posto de saúde, não tem pracinha. Não tem nem igreja para ter santo padroeiro. Às vezes penso que vim morar nas páginas de um livro qualquer do Saramago ou do García Márquez, numa série distópica da Netflix, num velho álbum de fotografias empoeirado no canto de um armário encostado em um antiquário de Kranj.
Os habitantes de Koritno gostam de festas.
Gostamos.
A esta altura, quase quatro anos fincando raízes neste solo cheio de pequenas rochas, já sei bem onde me enfiei, cidadão honorário que me sinto. Conheço meus vizinhos mais pelos copos vazios do que pelos nomes eslavos de difícil pronúncia e pelas faces caucasianas que me parecem opacas devido à minha visão deteriorada.
Daí tem São Simão, que no dialeto caipira daqui virou Šimen, em vez de Simon. Sim, é o apóstolo de Jesus, um dos 12. O zelote. Um sobre quem pouco se sabe. A Eslovênia é um país historicamente de hegemonia católica, embora a imensa maioria das pessoas não pratique religião alguma — diria que é culturalmente católico, não religiosamente católico, como sói acontecer em boa parte das democracias europeias contemporâneas, aliás.
Koritno, como disse, não tem nenhuma igrejinha, o que causava um problema sério na vida de meus vizinhos: a falta de um padroeiro a quem brindar. First-world problem? Eu chamaria de thirsty world problem, no caso a minha aldeota aqui em que todos sempre parecem sedentos por motivos para um bom vinho.
Imagino-os discutindo a questão, exatamente 20 anos atrás:
— Precisamos de um santo… — teria comentado J., talvez.
— Santo para quê? Já estamos bem com nossos pecados! — rebateu D., com uma gargalhada afoita.
— Ora, um santo serve para muita coisa — refletiu B., exalando sapiência e mistério e já apontando o lápis para escrever um poema dedicado ao assunto. — Se tivéssemos um, poderíamos armar um convescote anual em honra ao próprio.
A ideia parecia boa. Ótima.
Houvesse um espirituoso brasileiro no meio da patota, certamente seria eleito por aclamação imediata São Nunca, essa entidade celebrada por incréus e ímpios, marotos, no Dia de Todos os Santos — posto que não há 30 de fevereiro em calendário gregoriano algum.
Os eslovenos da vilinha de quase mil anos foram pela conveniência. Lembraram-se de Šimen, o apóstolo cuja memória oficialmente é recordada em 28 de outubro. Novembro já tem cara de inverno no clima local, não dá muito para encarar a friaca do lado de fora.
— Pronto, fechamos o ano com Simão. E eis que a vila sem santo ganha um padroeiro para justificar nossos excessos — sentenciou M. — Já vou providenciar as garrafas.
No começo achava que tinha vindo aqui com espírito de antropólogo. Agora já sei: minha missão é menos entender a tradição do que contribuir para perpetuá-la.
Saúde!

