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Para começar, a escolha: ao receber o convite para escrever sobre a obra nacional de minha predileção, em um primeiro momento pensei imediatamente no livro X (explico isso daqui a pouco), do autor Fulano, para mentalmente me corrigir e enumerar o livro Z, do genial Beltrano, e me vi em uma encruzilhada, pois emendei um “se bem que também tem aquele do Verissimo pai, hein?”.

Para apaziguar minha consciência literária — e a fúria do editor da “Bula”, fulo com minha indecisão —, decidi escrever sobre os três livros, um por vez, tendo o cuidado de guardar os nomes dos outros dois (teria mais?) junto com seus autores para textos futuros. E devo salientar que a releitura deste clássico para escrever este artigo me fez ter uma dimensão ainda maior dessa obra, pois a memória é um palácio onde às vezes não entramos em todos os cômodos (e partes primordiais do texto estavam perdidas em quartos abandonados).

Último romance escrito por Erico Verissimo, “Incidente em Antares”, dividido em duas partes distintas, traz em si como que um apanhado de toda sua carreira, utilizando-se de uma cidade fictícia para criar um microcosmo tanto de seu Rio Grande do Sul natal quanto do próprio Brasil.

Na primeira, temos a gênese de Antares — nomeada em homenagem à estrela de mesmo nome, mas que para a maioria dos moradores tinha a ver com a quantidade de antas por ali, primeiro indício da ignorância dos locais —, onde duas famílias, os Vacarianos e depois os Campolargos, se digladiam pelo poder, em uma disputa que atravessa décadas e se entrelaça com vários episódios históricos da vida nacional, como a Revolução Federalista, a Revolta de 1923, a Revolução de 1930, a Constitucionalista de 32, com alianças e posições que mudam ao longo do tempo, tendo unido forças (meio que a contragosto) já na Guerra do Paraguai. E, nessas disputas, um lado fazia vítimas no outro, em uma escalada de ressentimentos e ódios, que só é estancada, vejam só, com a intervenção de “um deputadozinho de São Borja”, um ainda desconhecido Getúlio Vargas — e é genial como o autor traz personagens reais para dentro do universo que ele criou.

Essa fase inicial se assemelha muito, mas de uma forma mais sucinta e ágil, aos desdobramentos que são vistos em “O Tempo e o Vento”, a fenomenal trilogia histórica que narra a história dos tempos missioneiros até o Estado Novo, criando arquétipos como Ana Terra e Capitão Rodrigo. Verissimo não economiza nas tintas e descreve uma sucessão de desmandos, assassinatos e estupros, não deixando que nenhum dos lados possa se declarar mais íntegro que o outro; sob a ótica do autor, são todos culpados até que se prove o contrário.

Com o já citado apaziguamento, a princípio politiqueiro, bancado por forças externas a Antares em nome de uma unificação gaúcha contra a política do café com leite, a paz entre os poderosos acaba se assentando com o avanço do século 20. E é bem neste momento, com a chegada de novos fatores, como indústrias internacionais se instalando no município — pagando uma régia quantia em propinas, logicamente —, o gradual aumento da população e as novidades de uma nova época, que a narrativa se aproxima do incidente.

Timidamente no começo, um grupo de pesquisadores aparece para fazer uma pesquisa científica, publicada como “Anatomia duma Cidade Gaúcha de Fronteira”. O grupo conta com membros como Xisto Vacariano Neto, um dos descendentes da oligarquia municipal, e é comandado pelo professor Martim Francisco Terra (tataraneto de Horácio Terra, irmão de Ana Terra, personagens de “O Tempo e o Vento”, fazendo cruzamento entre as obras).

Aqui, Verissimo soube captar perfeitamente o zeitgeist da época e aplicá-lo à trama, situada logo depois da renúncia de Jânio Quadros — outra persona histórica que faz participação especial —, durante o curto governo de Jango, quando a paranoia anticomunista recendia no ar, principalmente em locais como Antares e sua sociedade dividida em castas devidamente demarcadas.

Uma greve geral — devidamente criticada por vários segmentos da sociedade — acaba por ser o estopim dos incríveis eventos de 13 de dezembro de 1963; com a adesão dos coveiros ao movimento, sete defuntos têm seus enterros impedidos, ficando os caixões de todos eles do lado de fora do cemitério, aguardando as negociações dos vivos.

E é neste momento que o realismo fantástico adentra a narrativa — assim como nos contos de “Fantoches” (1932) e em alguns momentos de “Caminhos Cruzados” (1935) —, quando, inconformados, os defuntos se levantam de seus caixões e decidem voltar ao coreto da cidade, cobrar dos viventes o funeral que querem e merecem.

A discrepância entre os defuntos não poderia ser maior, pois cada um deles representa uma faceta da própria humanidade: há personagens da elite local, como dona Quitéria, matriarca do clã Campolargo, e o advogado Cícero Branco, testa de ferro dos poderosos dali; a cultura representada pelo professor e pianista frustrado Menandro Olinda; pessoas simples — mas politizadas —, como João Paz, um jovem pacifista que foi barbaramente torturado e morto pela polícia, ou Barcelona, sapateiro anarcossindicalista e grande conhecedor das indiscrições dos moradores; e até seres invisíveis socialmente, como o pinguço Pudim de Cachaça (um dos melhores apelidos para personagem em todos os tempos) e a desamparada meretriz semiaposentada Erotildes.

Aliás, na preparação para o clímax do livro, que é o encontro dos mortos com os vivos no coreto da cidade, há o acerto de contas que cada um deles faz com aqueles que eles deixaram para trás, sejam parentes, antigos sócios ou amantes; as partes relativas ao encontro de Erotildes com sua amiga Rosinha (que se arruma toda aguardando seu retorno) e ao do Pudim de Cachaça com seu parceiro de boemia Alambique (segundo melhor apelido) são de uma sensibilidade ímpar.

E tem-se enfim o encontro de toda a cidade com os sete defuntos no centro da cidade, onde, enquanto o advogado denuncia todas as falcatruas em que esteve envolvido com os poderosos do lugar, o sapateiro entrega uma longa lista de traições e perversões feitas pelas pessoas comportadas e de bem.

Impressiona saber que “Incidente em Antares”, feroz paródia histórica, social, política e de costumes, foi publicado em 1971, no epicentro da ditadura militar brasileira, e também que, apesar de todas as denúncias apresentadas no livro, o autor defendia a independência política de sua literatura, segundo ele mesmo afirmou:

“Quando escrevo”, disse Erico Verissimo, “não pergunto a que grupo ou partido político vou servir. Não permitirei que usem o meu nome em benefício de qualquer manobra política, seja ela burguesa ou comunista”.

Mas isso não o impediu de fazer uma piada ou duas com isso, como no diálogo de D. Quitéria com Martim Francisco Terra em uma entrevista:

“— Já leu Jorge Amado?

— Por alto. É bandalho e comunista.

— E o nosso Erico Veríssimo?

— Nosso? Pode ser seu, meu não é. […] Quem vê a cara séria desse homem não é capaz de imaginar as sujeiras e despautérios que ele bota nos livros dele.

— A senhora diria que ele também é comunista?

D. Quitéria, que mastigava uma broinha de milho — e mais que nunca parecia um pequinês —, ficou pensativa por um instante.

— O Prof. Libindo costuma dizer que, em matéria de política, o Erico Verissimo é um inocente útil.

Voltamos a falar na dissolução dos costumes.”

Jogadas de mestre de um escritor que soube não só recontar ficcionalmente a história brasileira pela ótica de seu estado, como denunciar tudo aquilo que achava de errado no país, utilizando-se da altiva distância que a arte confere àqueles que sabem manuseá-la com exatidão.

Capa de Incidente em Antares, de Erico Verissimo
Incidente em Antares
Primeira parte, capítulo 1

Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape riçado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde — só Deus sabe ao certo quando — veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozoica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de cartógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, não mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo prefeito municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.

No entanto, a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.

O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia — fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade — não só no estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos.

Tão insólitos, lúridos e tétricos — e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados — tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?”

Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma ideia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaria, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.

Erico Verissimo
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