Discover

Aliás, burro é um dos adjetivos mais suaves que eu tenho recebido nos últimos dias. Só porque estou apoiando e pedindo votos para o candidato da esquerda à Presidência da República. A vida é dura. Osso duro de roer. De tombar caminhão. Confesso que não curtia Benito Di Paula entre os anos 1970 e 1980. Não precisa me perdoar. Meu retrato: eu era muito jovem e, claro, burro. Um néscio que julgava o artista, não pelo seu talento, mas, na superficialidade, pela sua aparência física, considerando bisonho aquele jeitão caricato, espalhafatoso, meio cigano: cabelos compridos, bigodão cafona, roupas aberrantes, brincos e anéis. O meu desgosto se reforçava ainda mais porque ele vivia aparecendo nos programas televisivos de auditório, como Chacrinha, Silvio Santos, Raul Gil e Bolinha. Achava aquilo tudo um saco. Podia ser que nutrisse um autodesprezo inconsciente, por ser um adolescente que desperdiçava tempo assistindo à televisão, em vez de procurar coisa melhor para fazer na vida, como ler um livro, tocar um instrumento, jogar futebol, namorar. Eu lia livros, tocava violão, jogava bola, mas namorava pouco. Por sinal, em matéria de romance, eu era um conquistador medíocre. Coisas da vida. Como dizia o mestre, uma das raras vantagens de se tornar adulto e de envelhecer é deixar de ser burro um pouco mais a cada dia. Se bem que muitos veteranos se esmerem na estultícia, a despeito da passagem do tempo. Tenho me esforçado bastante para melhorar e não posso admitir que os detratores enquadrem a minha visão política no rol da burrice. Isso não. À medida que fui aprendendo mais sobre a música, construindo o meu gosto musical como se juntasse retalhos de cetim, procurando ser um indivíduo menos arrogante, prepotente e preconceituoso, passei a reconhecer o talento e o devido valor artístico do Benito Di Paula, que carregava a bandeira do samba e do pagode da pesada. Bendito seja. Fazendo paixão, Benito tornou-se um ícone inconteste da música popular brasileira. Eu soube que, nos últimos anos, ele enfrentava graves problemas de saúde, além de dificuldades financeiras. Teve a vida ceifada pelo câncer, aos 84 anos. Conferi na internet algumas cenas comoventes do seu último show, ocasião em que, bastante combalido, profundamente emocionado, ele parou de tocar o piano, chorou e terminou ovacionado pela plateia que cantava um de seus grandes sucessos: “Ah! como eu amei”. Eu não amei o Benito como eu deveria ter amado. Comecei tarde. Perdoa. Queria tê-lo visto de perto, no palco. Com a insuspeita dignidade de um otário, a fim de prestar um tributo particular, honesto e condoído, compilei as 10 melhores canções do Benito Di Paula, de acordo com o meu gosto e com as inúmeras listas que encontrei na web. Na juventude, eu ouvia muito as canções do Benito. Só não sabia que ele era grandioso. Percebi isso com as primaveras. Certamente, a sua obra musical ainda será reverenciada por muito tempo, do jeito que a vida quer. Pare, olhe e viva. Essa felicidade é nossa. Além de tudo, bom mesmo é o Brasil. Meu Brasil, meu doce amado! Viva a democracia! Viva Benito Di Paula! Vai ficar na saudade, sempre assim, além do arco-íris.

PARA OUVIR

Dez canções de Benito Di Paula

Ouça as dez canções selecionadas para esta crônica.

Abrir playlist no Spotify ↗

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

Leia Também