Literatura / Ensaio
Autor do Ciclo do Extremo Norte, o escritor paraense fez da vida entre o Marajó e Belém uma das grandes realizações do romance brasileiro
Entre os livros destinados ao descarte na Biblioteca Municipal de Soure, no Marajó, o editor Moisés Alves encontrou um exemplar da primeira edição de “Chove nos Campos de Cachoeira”. Alves preservou o livro. Segundo ele, a reedição foi feita a partir daquele exemplar. A Imprensa Oficial do Pará publicou seu relato em agosto de 2025.
Nessa notícia, a Editora Pública Dalcídio Jurandir anunciou que pretendia publicar os dez romances do Ciclo do Extremo Norte. As reedições de alguns desses livros demoraram décadas. “Ponte do Galo”, lançado em 1971, teve sua segunda edição em 2017. “Chão dos Lobos”, de 1976, voltou a ser editado em 2019. Para reeditar “Chão dos Lobos” e “Chove”, a editora Pará.grafo recorreu ao financiamento coletivo. A campanha terminou em 2018, com 314 apoiadores.
A primeira versão de “Chove” foi escrita em Gurupá, em 1929. Dalcídio retomou o romance em Salvaterra, quando trabalhava como inspetor escolar. Em 1940, ganhou o concurso promovido pela editora Vecchi e pelo jornal “Dom Casmurro”, que abriu caminho para a publicação no ano seguinte. Dalcídio tinha o apoio de amigos da Academia do Peixe Frito, grupo de intelectuais paraenses do qual participava Bruno de Menezes. O próprio Dalcídio escreveu sobre suas dificuldades econômicas e a vida literária paraense no “Dom Casmurro”, em agosto de 1940. Deu ao artigo o título “Tragédia e comédia de um escritor novo do Norte”.
Alfredo, personagem que acompanha boa parte do ciclo, chega ao ginásio aos 16 anos, em “Primeira Manhã”. O atraso na entrega do uniforme lhe custou oito dias de aula. No caminho, ele se pergunta se deveria ter beijado o pé de São Pedro na igreja. Dalcídio deixa que essa preocupação acompanhe o trajeto até o ginásio. Alfredo entra por engano numa sala do terceiro ano e sofre um trote no pátio. Os alunos o empurram para fora; seu quepe fica danificado. A chegada, que ele vinha preparando havia tantos dias, termina nessa recepção dos colegas.
Alfredo parece ouvir Andreza no forro do quepe amassado. Ela o chama de fujão, manda que volte à carteira. Fala do trabalho no curral sob o aguaceiro e da procura pela sepultura do irmão assassinado. Alfredo continua andando sob o chuvisco e se lembra de quando foi procurar Andreza, em dezembro. Tinha ido a cavalo, com pressa de chegar antes do pôr do sol. A narração acompanha o galope, deixando o ginásio e a praça por um momento.
Em “Belém do Grão-Pará”, de 1960, Libânia leva Alfredo ao Ver-o-Peso. Ela trabalha para os Alcântara, a família em cuja casa o menino vive como agregado. Na feira, prova uma farinha, depois outra, fazendo-se de entendida. Dalcídio trata com graça essa importância que a menina se dá. Libânia corre para ver os barcos, repara nos potes, cobiça um cachimbo. O narrador vai atrás dela, deixando que as mercadorias apareçam entre seus desejos e suas escolhas.
No domingo seguinte, Alfredo volta com seu Alcântara. O homem se demora na escolha da carne, examina a barriga da tainha, conversa com os peixeiros. Para Alfredo, porém, a cidade ficou mais bruta e pede dinheiro por tudo. Seu Alcântara está à vontade entre os vendedores; o menino sente falta até dos peixes que nadavam debaixo do chalé. Os que vê à venda o fazem lembrar daqueles.
Chamar Dalcídio de esquecido pede alguma precisão. Em 1972, ele recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Jorge Amado lhe entregou a distinção. Seus livros continuaram a ser estudados nas universidades, e os herdeiros doaram o acervo à Fundação Casa de Rui Barbosa, em 2003.

Dalcídio era comunista e foi preso duas vezes antes de estrear em livro. Em 1950, viajou ao Rio Grande do Sul pelo jornal “Imprensa Popular” para pesquisar o movimento operário de Rio Grande. Desse trabalho nasceu “Linha do Parque”, romance encomendado pelo PCB e publicado em 1959. É o único de seus 11 romances que não pertence ao Ciclo do Extremo Norte.
Em “Chove”, o major Alberto conta a dona Amélia a história de Joaquim Nabuco. Descalço, com a camisa aberta e a barriga de fora, procura imitar o porte do abolicionista. Dona Amélia é negra, e Alfredo acha esquisito que o pai seja branco e a mãe, preta. O leitor que acompanha as humilhações do menino terá de acompanhar também esse preconceito.
Dona Amélia escuta as recitações do major enquanto costura as ceroulas dele. Entre os poemas, prefere “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias. O marido se torna dramático, puxa a manga do vestido, pede atenção. “Estou ouvindo, homem, diga…”, responde ela. Amélia vê o velho índio furioso com o filho que chorou diante da morte. O poema, que o major representa com tamanha aplicação, já passou para a imaginação dela.
Benedito Nunes aproximou Dalcídio de Marcel Proust pela memória e pela introspecção. Willi Bolle retomou essa leitura num ensaio de 2011 e questionou a valorização do mundo interior das personagens em detrimento do aspecto documental dos romances. A lembrança de Andreza permite duvidar dessa separação. A voz que cobra de Alfredo a volta à escola traz para o pensamento dele o trabalho nos currais.
Em “Chove”, Eutanázio, meio-irmão de Alfredo, sofre com o riso de Irene, por quem é apaixonado. Ao rir, ela “arreganhava” a boca. O narrador acrescenta, no meio da descrição, “era o termo de Eutanázio”. A palavra vem do homem ofendido, que sente o riso nos nervos como “vidro moído”. Podemos acompanhar a dor dele e ainda desconfiar do retrato que faz da moça.
Quando Irene vai visitá-lo, Eutanázio já está agonizando. Ela está grávida, e ele deseja beijar seu ventre. A narração a apresenta “mansa” e relaciona essa mudança à maternidade.
O encontro comove, mas há algo nessa apresentação da moça que me incomoda. A descrição de seu riso merecia a desconfiança do leitor porque vinha da dor de Eutanázio. Agora, para vê-la com generosidade, precisamos encontrá-la grávida e sem aquele riso?
Eutanázio, porém, continua a se sentir humilhado diante dela. A serenidade de Irene lhe mostra a própria incapacidade de aceitar a morte. Ele a vê como o “Princípio do Mundo”, enquanto se julga miserável e ridículo. A mulher lhe parece redimida, mas ele não encontra consolo ao vê-la assim.
Dalcídio se demora na preferência literária de uma mulher que costura as ceroulas do marido. Dona Amélia ouve Gonçalves Dias, escolhe um poema, acompanha o destino do velho índio.
O livro que Moisés Alves encontrou em Soure guardava essa cena. Ao voltar a circular, leva dona Amélia a leitores que talvez nunca tenham ouvido falar de Dalcídio. Para recomendar o escritor, eu começaria por ela, ouvindo o marido enquanto trabalha.
A obra de Dalcídio
Seis romances para conhecer

“Chove nos Campos de Cachoeira”
Dalcídio Jurandir
(Pará.grafo, 348 páginas)
“Três Casas e um Rio”
Dalcídio Jurandir
(Pará.grafo, 496 páginas)
“Belém do Grão-Pará”
Dalcídio Jurandir
(Folheando, 412 páginas)
“Ponte do Galo”
Dalcídio Jurandir
(Pará.grafo, 256 páginas)
“Os Habitantes”
Dalcídio Jurandir
(Pará.grafo, 240 páginas)
“Ribanceira”
Dalcídio Jurandir
(Pará.grafo, 400 páginas)
Leia um trecho
“Chove nos Campos de Cachoeira”
Dalcídio Jurandir
Dona Amélia ouve Gonçalves Dias
O major Alberto faz planos de enriquecer com um pomar enquanto dona Amélia lava os pratos. Depois, entre livros e revistas, passa à recitação dos poemas. Ela costura suas ceroulas, ouve e tem suas preferências. A passagem a seguir acompanha os dois nesse convívio entre as leituras do marido e o trabalho dela.
— O que, coco e mamão? Uma fortuna! dizia para dona Amélia ocupada em arear os talheres. E as suas gavetas viviam cheias de planos e cálculos sobre despesas e lucros, visões de muito dinheiro, uma granja no Araquiçaua. Seria independente. Teria um pomar. E lia “Chácaras e Quintais”, “Brasil Agrícola La Hacienda”, para D. Amélia que não se interrompia, por isso, em jogar a água suja do alguidar onde lavava os pratos. No seu tempo de mais moço comprara coleções de livros enciclopédicos e bibliotecas populares portuguesas. Sempre foi um desejo de ler, de saber, de ter por alto uma noção do mundo e dos homens. E muitos almanaques e revistas de Santa Rita de Cássia. Seu grande sonho era entronizar uma imagem de Santa Rita de Cássia em sua casa. O livro onde ia beber a influencia para os seus discursos era o de Antonio Cândido. D. Amélia, cosicando as ceroulas do Major, se banhava de eloqüência ouvindo discursos inteiros de Antônio Cândido, todo o “Caçador de Esmeraldas” de Bilac, a “Via Láctea”, “I-Juca-Pirama”. Desse era de que mais gostava. Major ficava dramático. E psiu, psiu, puxando a manga do vestido de D. Amélia.
— Estou ouvindo, homem, diga… E Major exclamava:
Pois choraste em presença da morte?
meu filho não és…D. Amélia ficava era vendo o velho índio danado com o filho que chorou em presença da morte. Mas, se acabava de ler “As Pombas”, Major ia logo puxando D. Amélia para lhe mostrar a resposta da “Chácaras e Quintais” a um consulente que queria saber a melhor maneira de curar o gogo dos pintos. Major sonhava reformar a casa. Aquele chalé havia sido uma coisa apressada, não tinha saído como imaginara. E mostrava a planta da verdadeira casa, talvez mesmo a casa em projeto fosse mais real que o velho chalé. O novo chalé estava todo desenhado e pintado mesmo. Era bonito e grande. Alfredo, com a sua bolinha, descia para o seu tanque, onde prendia seu gado de tucumã e armava a casa nova no lugar da casa velha. Major tinha planta para uma pocilga dos Polland China, para um apiário, para uma grande horta bem aterrada e estrumada onde tivesse muita couve e quiabo.

