Discover

Literatura / Depoimento

Um depoimento sobre a convivência com Dalton Trevisan, o rompimento e a defesa de sua obra.

Dalton Trevisan de óculos e charuto, em fotografia em preto e branco.
Dalton Trevisan Derson Trevisan / Divulgação

1.

Era posicionamento cristalizado de Dalton Trevisan não sair da editora Record. Por três motivos. O primeiro e principal: ele tinha feito um trabalho minucioso e obsessivo de revisão de seus livros e não queria correr risco com uma nova digitação e com a revisão normativa de quem não conhecesse profundamente seu estilo. Várias editoras tentaram levá-lo para seus catálogos, ele sempre recusou de primeira, enquanto tinha controle de sua obra. Segundo motivo: ele era muito grato à Record, que o acolheu em um momento decisivo para sua projeção nacional. Terceiro, ele não queria chamar a atenção para a vida pessoal, e uma mudança de casa publicadora geraria furor jornalístico.

2.

Dalton Trevisan NUNCA aprovaria a publicação de material guardado e muito menos de fotografias e documentos. A última matéria autorizada sobre a vida dele foi feita por Luiz Vilela, quando ambos ganharam o prêmio de contos do Paraná. Saiu no “Jornal da Tarde” em 6 de julho de 1968 e eu reeditei, com autorização deles, em uma revista chamada “Radar” (julho/agosto de 2000). Nada, nem mesmo uma reprodução de seus textos datilografados, teria a aprovação dele, pelo menos enquanto gozava de autonomia intelectual e emocional. Dalton passou a vida apagando os documentos pessoais e as edições anteriores de sua obra, não aprovaria a espetacularização de sua vida pessoal e de seu trabalho como criador.

3.

Não conheço pessoalmente a gestora do espólio literário do autor, a senhora Fabiana Faversani. Mas, dentro da tradição literária, ela cumpre o mesmo papel de María Kodama em relação à obra de Jorge Luis Borges – o da secretária que se aproxima de um grande autor no final de sua vida e afasta todas as amizades dele, para se tornar detentora exclusiva da versão oficial da biografia e da bibliografia – com o agravante de que Dalton sempre lutou para subtrair o autor em nome da universalidade de seus livros.

4.

Não fui inimigo do Dalton, fui um discípulo que trabalhou para a divulgação da obra dele. Minha dissertação de mestrado (UFSC, 1992) e minha tese de doutorado (Unicamp, 1998) foram sobre ele. Escrevi dezenas de artigos sobre seus livros. Fiz a publicação fac-similar da revista “Joaquim”, com o aval do Dalton, imprimi caderninhos dele e fiz a leitura crítica de alguns de seus livros antes da publicação. Convivemos intensamente de 1993 a 2000, quando, sem nenhum motivo, ele passou a me prejudicar no meio literário.

Capa da revista Joaquim, em laranja e branco, com o nome da publicação e o sumário.

A revista

Joaquim

Miguel relata ter publicado a edição fac-similar da revista com o aval de Dalton Trevisan

Imagem: reprodução / Biblioteca Pública do Paraná

5.

O temperamento de Dalton Trevisan indicava que ele sofria de delírio persecutório. Biograficamente, liga-se isso a um acidente na indústria da família (Fábrica de Vidros Trevisan), na juventude, quando houve a explosão de um forno e Dalton foi atingido. Ele, ao longo da vida, brigou de forma unilateral, algo próprio de quem sofre desta mania de perseguição, com todos os amigos importantes que o ajudavam. Listo aqui algumas dessas pessoas que foram perseguidas por ele: Cassiana Lacerda, Eduardo Virmond, Marilda Binder Samways, Poty Lazzarotto, Jaime Lerner e Wilson Martins. É de Wilson Martins a frase que resume a postura do grande contista: “Um dia o Dalton briga com você e você nem sabe a razão.” Depois ele tentava retomar a amizade, como ele fez com o Poty.

6.

O comportamento do Dalton sempre foi de extremo egoísmo. Era impiedoso com amigos, que ele transformava em personagens caricatos. Todos fomos parar nos livros dele. Ele usava o escudo da ficção para atacar as pessoas, fossem elas apenas de suas relações pessoais, seres fragilizados por não terem voz, fossem figuras públicas com poder. Com isso, ele se protegia de processos judiciais e ridicularizava os seus desafetos. Do ponto de vista financeiro, era mesquinho. Embora de família de industriais, viveu como pobre, em uma casa antiga e malcuidada, aplicando sua fortuna em operações rentistas e pedindo favores a amigos, sem pagar por ajudas e consultorias.

7.

Não escrevi o romance à clef “Chá das Cinco com o Vampiro” contra ele. É um livro-homenagem. Usei as mesmas técnicas dele para compor um painel do meio literário curitibano. O livro foi escrito entre 2002 e 2003, depois de eu ter sofrido muitos ataques sorrateiros por parte do grande e admirável contista. O meu romance não era para ser publicado, mas ele mandou um amigo em comum, que desfrutava da minha intimidade, vir até minha casa e pegar os originais. De posse desta cópia privada, ele aumentou os ataques e escreveu uma acusação contra mim (um texto chamado “Hiena papuda”), o que me obrigou a aceitar o convite da editora Objetiva para publicar este romance.

Capa de Chá das Cinco com o Vampiro, de Miguel Sanches Neto, publicada pela Objetiva.

O romance

Chá das Cinco com o Vampiro

Miguel Sanches Neto
Objetiva, 2010

O livro cuja escrita e publicação o autor comenta neste depoimento

8.

Continuo defendendo a obra de Dalton Trevisan. Para mim, ele é o maior contista da língua portuguesa de todos os tempos. Mas não se pode, até para a recepção correta de sua obra, transformá-lo em um bom velhinho, em uma pessoa doce e em um defensor das pautas sociais. Era um homem aprisionado em sua própria obra, um atormentado que espalhava sofrimento ao seu redor por conta deste comportamento delirante de que todos o perseguiam. E com isso captava a essência perversa do ser humano.

Texto publicado originalmente na Matinal e gentilmente cedido pelo autor à Revista Bula.

Leia Também