Discover

Beth Raymond (Shannyn Sossamon) tenta descobrir por que seus amigos estão morrendo depois de receber mensagens que antecipam os próprios últimos instantes. Ambientado nos Estados Unidos contemporâneos ao lançamento, em 2008, “Uma Chamada Perdida”, dirigido por Eric Valette, acompanha a jovem numa investigação que começa entre pessoas próximas e chega a uma história familiar cercada de suspeitas. Ao lado do detetive Jack Andrews (Edward Burns), ela precisa localizar a origem das ligações antes que outro aviso se cumpra.

A premissa transforma um gesto corriqueiro numa experiência bastante desagradável. Conferir o correio de voz, hábito mais comum naquele tempo, significa ouvir uma gravação enviada do futuro. Nela, o destinatário reconhece a própria voz numa situação de perigo, acompanhada da data e do horário em que aquilo acontecerá. Apagar a mensagem seria uma ótima solução, dessas que poupariam trabalho à polícia e sofrimento aos envolvidos. Infelizmente para Beth e seus amigos, a ameaça permanece depois que o recado desaparece da tela.

Uma mensagem com hora marcada

Leann Cole (Azura Skye), amiga de Beth, recebe uma dessas gravações após a morte de Shelley Baum (Meagan Good). O telefonema estabelece um prazo e muda sua relação com tudo o que acontece ao redor. Aparições perturbadoras passam a acompanhá-la, enquanto a proximidade do horário anunciado aumenta seu desespero. Beth tenta ajudar, mas dispõe de poucas informações para enfrentar algo que ainda parece impossível.

Brian Sousa (Johnny Lewis), outro integrante daquele círculo, também recebe uma mensagem. A repetição leva Beth a desconfiar de uma ligação entre os acontecimentos. Ela já tem razões para acreditar que seus amigos correm perigo, embora continue sem saber quem está por trás dos avisos ou o que poderia fazer para interrompê-los. Reconhecer o padrão oferece uma pista, mas também acrescenta uma angústia particular. A próxima vítima pode estar entre os contatos de alguém que ela conhece.

Valette aproveita melhor essa ideia quando deixa a previsão pesar sobre as ações dos personagens. Uma pessoa avisada sobre a própria morte passa a observar qualquer ruído ou movimento com outra atenção. O suspense cresce nesse intervalo entre a mensagem e o acontecimento anunciado, quando ainda existe tempo para procurar ajuda, mas nenhuma certeza de que ela chegará. O celular, sempre por perto, passa a carregar uma informação que ninguém consegue ignorar.

Beth procura alguém que acredite

Contar essa história à polícia traz dificuldades previsíveis. Beth testemunhou acontecimentos terríveis, mas sua versão exige que os agentes aceitem a existência de gravações vindas do futuro. Para quem a escuta, o abalo emocional parece uma explicação mais aceitável. Ela precisa insistir para que as semelhanças entre as mortes sejam investigadas, enquanto outras pessoas continuam expostas às chamadas.

Sossamon dá à protagonista uma aflição contida. Beth está assustada, porém continua tentando organizar o que sabe e transmitir essas informações a alguém capaz de ajudá-la. Essa combinação de medo e persistência sustenta o interesse pela personagem, sobretudo quando o roteiro a coloca diante de interlocutores dispostos a encerrar o assunto. Seu esforço para ser ouvida tem mais força do que alguns dos sustos espalhados pelo caminho.

O detetive Jack Andrews oferece a abertura que faltava. Sua irmã morreu em circunstâncias semelhantes, e essa perda o torna receptivo ao relato da jovem. Ele tem uma razão pessoal para investigar, além dos recursos de sua profissão. A parceria permite comparar os casos e procurar vínculos entre as vítimas. Burns interpreta Jack com sobriedade, embora as conversas entre os dois às vezes pareçam limitadas à transmissão das informações necessárias para a próxima descoberta.

O perigo chega a Taylor

A situação ganha outra urgência quando Taylor Anthony (Ana Claudia Talancón), amiga e colega de casa de Beth, recebe uma chamada. Até então, procurar a origem das mensagens já era uma necessidade. Proteger alguém tão próximo exige agir antes que a pesquisa ofereça qualquer garantia. Beth precisa cuidar da amiga enquanto ainda tenta descobrir quais medidas poderiam ter algum efeito contra a ameaça.

Talancón expressa o pavor de quem recebe uma previsão impossível de esquecer. Há algo cruel em dar a uma pessoa informações sobre sua morte sem lhe oferecer meios de escapar dela. Taylor precisa atravessar essa espera, e Beth passa a carregar também a responsabilidade de tentar ampará-la. A proximidade entre as duas dá um peso afetivo à investigação, que poderia ficar restrita à procura de pistas.

É nesse ponto que a insistência de Valette nas aparições perde parte da força. Rostos deformados e figuras ameaçadoras ocupam espaço numa história cuja premissa já oferece material suficiente para inquietar. Alguns desses recursos interrompem a expectativa em vez de torná-la mais intensa. A gravação com a voz da própria vítima permanece mais assustadora porque contém algo íntimo e reconhecível. Quem a recebe pode duvidar de tudo, mas sabe a quem pertence aquela voz.

Uma família entra na investigação

As buscas de Beth e Jack chegam a Marie Layton (Rhoda Griffis), uma mulher cuja história familiar pode ajudar a explicar a sequência de telefonemas. O interesse passa a incluir acontecimentos anteriores às mortes acompanhadas pela protagonista. A dupla precisa examinar essas conexões com cuidado, pois uma suspeita sobre o passado ainda está longe de oferecer proteção a quem recebeu um aviso.

Essa passagem dá à investigação um rumo mais definido, embora também concentre informações que poderiam ter sido distribuídas com maior naturalidade. A curiosidade sobre Marie sustenta a atenção, mas algumas descobertas chegam com a pressa de quem precisa encaixar as peças antes que o tempo termine. Beth e Jack avançam, enquanto o espectador tenta distinguir o que cada pista acrescenta à procura pela origem das chamadas.

Valette consegue tornar incômoda a espera por um horário anunciado, mas enfraquece esse efeito ao repetir sustos que logo ficam previsíveis. Sossamon preserva o interesse por Beth, uma jovem que continua buscando ajuda apesar das perdas e da descrença alheia. Quando seu próprio aparelho toca, tudo o que ela e Jack reuniram precisa se transformar em alguma possibilidade de escapar. Agora, é Beth quem precisa agir antes da hora marcada.

Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também