A determinação é o abrigo do homem nas tempestades da vida. Mas o destino, esse sádico tirano, insiste em lembrar-nos de que nem sempre venceremos só com bravura. Como uma ínfima parcela dos oito bilhões de seres humanos sobre a Terra alcança a felicidade, essa bênção continua restrita a uns pouquíssimos sortudos, que talvez não devam apenas ao inesperado tamanha maravilha. Existem homens que experimentam a glória pelo que fazem, mas também há os que se destacam pelo que deixam de fazer, enigma que Ken Loach decifra com a classe habitual em “A Parte dos Anjos”, outro de seus filmes sobre gente comum e inditosa no Reino Unido. Loach e o roteirista Paul Laverty miram uma pobreza altiva, que afronta um sistema econômico ancorado na perpetuação das desigualdades e em privilégios revoltantes. Aqui, o diretor conduz a história a um desfecho tão original quanto satisfatório, maneirando no pessimismo que caracteriza muito de sua obra.
A vingança do lumpesinato
A exclusão sempre fez parte da vida de Robbie, e esse cenário pode ficar ainda mais agudo. Aos vinte e poucos anos, ele será pai e, malgrado se esforce, não tem colhido o resultado que considera justo na busca por um ganha-pão, até descobrir o universo de bebidas alcoólicas raras, que junta senhores endinheirados dispostos a pagar uma montanha de libras por um bom uísque. Discretamente, Loach vai levando o olhar do público para essa figura tragicômica e vulgar, reservando uma surpresa para quem alimenta alguma dúvida a respeito da sua inteligência. Quando se dá conta de que será leiloado um barril cheio de um destilado escocês puríssimo, procura os ex-detentos que conheceu no programa de serviços comunitários a que se submetera para escapar da prisão e convence-os a surrupiar a tal relíquia. Espectadores e críticos que acompanham a carreira de Loach costumam referir-se a este como um dos filmes mais lúdicos do cineasta, afirmação que ganha um valor adicional sempre que Paul Brannigan entra em cena. Revestido de uma certa iluminação, o título remete ao que se evola da matéria com o passar do tempo, sem prejuízo da qualidade. Uma boa definição para o trabalho de Loach.

